Se há coisa que sempre fiz desde que tenho memória foi sofrer em silêncio, enfrentar os meus problemas sozinhos e guardar os meus maus momentos para mim por ninguém me dar à vontade para partilhá-los.
Isto é triste eu sei, principalmente quando eu posso dizer que os meus pais em toda a minha vida não podem apontar um assunto em que eu tenha estado em baixo ou triste, um sofrimento meu, os únicos dois problemas que os meus pais tiveram conhecimento que eu passasse foram os de saúde e os financeiros.
Isto entristece-me bastante, entristece-me ter saudade deles, amá-los e cada vez que vou ter com eles meter a minha máscara de pessoa fria que não têm problemas; e ao meter esta máscara torno-me frio ao ponto de nem dizer o que sinto por eles e parecer até que não gosto deles.
Desde que entrei para a Universidade e saí da alçada deles, desde que comecei a agir consoante aquilo que pensava e acreditava, muitas portas se abriram, crescimento como pessoa a todos os níveis, mas isto tudo trouxe a consequência de ainda mais me afastar deles, pois aquilo que antes eram acções de frieza, agora se tornaram acções de frieza à distância. E aquilo que antes era não conseguir mostrar sentimentos devido à minha máscara, agora esta faz com que não mostre saudades. E magoa-me, dói-me, mata-me ser assim… mas a frieza pode-se arrastar tanto tempo e esconder-se no coração por tanto tempo que nem damos por ela lá estar e acabamos por pensar que a nossa personalidade é ser assim… e não é. Nem vale a pena comentarem em contrário.
Como ia a dizer, com a vinda para a universidade tudo o que antes se resumia a agir sem pedir autorização aos meus pais, agora à distância manteve-se com mais intensidade ainda, agora era agir e sofrer mais as consequências de tudo, fosse de falta de trabalho, falta de comida, e o do costume, desgostos de amor, desilusões de amigos.
É triste… é mórbido… é pouco nítido… ter uma família que se ama e nunca ter partilhado com eles um desgosto de amor, uma paixoneta que não deu resultado, um namoro ideal embora que temporariamente… é indescritível.
E ultimamente as decisões que os meus pais têm tomado para a vida deles não tem sido as correctas, querem ter algo mais na vida, e não há mal nenhum em querer isso e ser ambiciosos, mas há uma fase para os chamados “saltos às cegas” onde há margem para errar, mas numa dada fase da vida em que há filhos envolvidos não há muita margem para erro, não pode haver esses “saltos” pois os erros podem afectar mais que uma pessoa. E é isso que os meus pais têm feito uma e outra vez. Inicialmente eu mantive a mesma atitude de sempre, apoiei-os em tudo, em todas as decisões que tomaram, alertei para os prós e contras das mesmas, e mantive-me sempre na minha, abstraído dos problemas deles e do mundo. Mas se a crise chega a todos, os problemas deles mais cedo ou mais tarde começam a afectar-me.
Cheguei à fase final do meu curso – o Estágio e necessidades extras são necessárias – roupas adequadas, pc portátil, um carro… e tudo isto são coisas que eu poderia ter ido adquirindo ao longo do tempo… mas por viver comodamente o dia a dia com o pouco que tinha e não querer chatear ninguém com os meus problemas eu não juntei nada, e sempre fui de querer as coisas à ultima da hora, sujeitando-me às consequências.
Resultado – Não tenho o que preciso… o dia-a-dia é dificultado com os kms para andar, que se tornam cada vez mais difíceis a cada dia que passa, pois ainda que melhorem o físico, as feridas nos pés e os ténis a danificar já se começam a sentir… a necessidade de carro e portátil assim como de mais roupa de trabalho é extremamente necessária… e eu tentei.. eu tentei manter-me concentrado em apenas pedir e contentar-me com um “não posso agora” “isto está mau”.
Eu contento-me … não me peçam é para continuar mais com a farsa… a farsa do “tudo corre bem” a farsa do “não preciso de nada e estou a aguentar perfeitamente com o pouco que me dão” eu não aguento.. e entristece-me… eu quero aguentar, pois os meus pais não estão bem de momento e eu não tenho de os julgar por estar assim.
Mas por conter tanto isto para mim, chegada dada altura o saco tinha de rebentar.. e ao fim de uma semana de kms atrás de kms, cansaço, noites não aproveitadas, e problemas a acumular, o desabafo/bomba saiu com a pessoa que não merecia levar com tudo isto em cima – a minha mãe. Não que as palavras fossem para outras pessoas, não. Eram para ela, só que não ditas daquela maneira, ela não merecia levar com tudo em cima, pois já tem bastante arrependimento e problemas às costas.
Eu fui mau… fui bruto… arrependo-me, tenho remorso… magoei-a … nunca a tinha magoado antes e pensei que só a magoaria quando lhe contasse a minha sexualidade, agora vejo o quanto sofro ao magoá-la e apetece-me nunca lhe contar o meu segredo… ela não merece tal sofrimento. Ela tem ido por fases de sofrimento uma atrás da outra e eu não posso esperar ela não ter nenhuma fase dessas para lhe dar eu uma.
No meio de tanto desabafo sem pensar, disse-lhe que alem dos problemas que já tinha de enfrentar ainda tinha aqueles que ela e o meu pai não me permitiam partilhar graças à mentalidade que tinham, e ela perguntou-me se eu era Gay… ao qual eu respondi que não e ela disse que não acreditava.. prefiro nem reagir a isto ainda, não consigo.
Vou continuar a guardar tudo na minha caixinha para se me for permitido por alguém eu possa desabafar… e se porventura anda tiver a sorte de ter a minha mãe ou o meu pai ao meu lado para lhes poder contar as aventuras e desventuras do meu coração, eu contarei tudo desde o verdadeiro início até ao momento em que estou feliz ao lado deles a desabafar tudo…