domingo, 4 de dezembro de 2016

"Deixa-me Ser" - Filipe Branco

Acabei de ler este livro e é quase impossível não escrever sobre ele!
Todos sabemos que as fases de "bullying", "coming out", aceitação dos que nos são mais próximos, desgostos de amor ou o "ressacar" dos mesmos, são processos ou maratonas de vida dolorosos e que deixam mazelas por muito tempo. Tornam-nos quem somos mais tarde e moldam-nos a personalidade, mas nem sempre são experiências que partilhamos de ânimo leve... passar por isso tudo e num tão curto espaço de tempo e ainda expô-lo assim!? Qual "Blackout" para a Britney... Dou a mão à palmatória ao Filipe (o autor deste livro).
O que mais me fascinou, além da "sobrevivência" e da "curiosidade" em saber o desenrolar dos enredos amorosos... foi mesmo as semelhanças com a minha própria história de vida.
Desde um começo de "bullying" prematuro, numa época injusta de uma geração ou personalidade com o síndrome do "nasci na época errada" ou "sinto que não pertenço a este tempo"... onde nem nós ainda sabemos o que somos e já somos confrontados com isso... sem sequer podermos desabafar com ninguém em casa, nem com aqueles que desde o início deveriam ter sido os nossos protetores "no matter what".
Devo dizer que nutro/i uma certa "inveja" e admiração pela relação que ele mantém com a Avó. Eu vivi até aos dez anos com a Avó e tenho toda a cumplicidade com ela e também faço da minha aldeia alentejana onde cresci, um refúgio. No entanto, decidi poupá-la ao meu "coming out" e não afetar a sua mentalidade de outros tempos.
Amei a cumplicidade do Filipe com a irmã. Eu tenho três, e apesar de agora termos uma boa aproximação, eu tive de sacrificar o meu "coming out" em prol do bem-estar deles, isto é, quando o fiz, logo de seguida, um por um, os três fizeram o mesmo "coming out", primeiro a mim (no caso das minhas duas irmãs) e depois aos pais; à exceção do meu irmão que não precisou dizer-me. Eu e eles partilhámos de uma dupla tortura pois na altura do "coming out" tinhamos os pais separados, então foi engolir em seco e despejar dois "coming out's" no mesmo dia. Apesar de eu e eles o termos feito de formas diferentes. Eu fí-lo primeiramente como o Filipe, escrevendo tudo. Com 25 anos não havia um simples "sou gay" e pronto, tinha de lhes fazer entender tudo o que ficara para trás para eles juntarem os pedaços de história que nunca tinham assimilado.
Gabo a coragem do Filipe para o fazer numa altura de tempos académicos onde tanto precisamos do apoio dos pais para ter principalmente, uma estabilidade financeira. Eu, como estava longe deles durante esses tempos, decidi esperar por uma altura em que fosse mais independente e não fosse ter consequências com o "não aceitar" dos meus pais, pois eu previa mesmo tempestades quando o fizesse.
Palmas à sua Avó e Irmã e vénia aos seus pais.
Agora, ainda que os meus aceitem e já tenham passado a fase de me questionarem. Só agora a minha mãe conheceu um rapaz que estivesse comigo e o meu pai, ainda que me deixe à vontade para fazê-lo, eu ainda não o fiz... (o percurso com o meu pai, infelizmente, não é tão caloroso como o do Filipe com o pai dele).
Identifiquei-me com a sua fase de rebeldia de tempos académicos... liberdade... novas emoções... amigos para a vida... primeiros trabalhos... primeiras moradias e independência. 
Mas aquele seu primeiro amor..."damn" ... até a mim me arrasou ... depois de toda a compaixão criada pelos teus momentos anterioroes "menos bons" quase que torcemos a cada página para que isto acabe sempre bem... mas até nisso me identifiquei... Também nesta cidade onde estudei e abri os olhos para a vida, conheci aquele que foi o grande amor, o "the one that got away", perdi esse amor, quebrei e parti. Contrariamente ao Filipe (que o fez mais tarde também), foi nesta fase que fui para fora do país, Suíça, no meu caso, e sim, vivenciei parte do que descreve de Itália (em outras referências que não no livro). No meu caso, aventuras passadas em Roma, Veneza, Burano e Milão.
E só muito mais tarde "regressei" à cidade onde muito fui feliz e "infeliz". Tal como o Filipe. Com o passar do tempo, também lá fui voltando para ver amigos e fazer as pazes com o lugar... perdoar-lhe por me ter quebrado e fiz-lhe prometer que tinha de me dar algo semelhante ao que me tinha roubado... ou lá perto, e por isso decidi que queria que essa mesma cidade fosse a minha "casa" a longo prazo. Comprei casa (sim, já estou na idade de passos desses, ou decidi estar)... e por ironia do destino, encontrei um novo alguém.
Nem tudo é perfeito ainda, mas já não sou aquela pessoa de antes... tal como o Filipe, cresci, mas ao ler o seu regresso à cidade e aquela nova tentativa de amor que parece não ter magoado tanto como a primeira, deixou-me de armas levantadas para não me deixar magoar de novo.
Tal como ele, a rotina voltou de novo, novo trabalho, no lugar com a minha história, com certeza muitas das más memórias foram substituidas por boas, ou estão em paz agora e amenizadas, tal como as minhas. Mas estas ruas (em ambas as histórias) ficarão para sempre marcadas pelo amor, suor, lágrimas e a nossa própria pele.
Com isto tudo fiquei com vontade de voltar a visitar a Serra da Estrela, que muito boa nostalgia me fez sentir... e eu adoro essa sensação na dose certa.
Acho apenas que o Filipe ao ter tido um "Blackout" desta dimensão e tão semelhante aquele que foi o "Blackout" mais assistido pelo mundo, o "dela", faltaram-lhe mais referências, apesar de la andarem implícitas.
"Now I'm stronger than yesterday".
Bom Livro **
* Referência ao Livro "Deixa-me Ser" de Filipe Branco.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Segredo

"O grande segredo para não sentir um mal na plenitude é não sentir um bem na plenitude: ficar pelo meio.
Mas ficar pelo meio, mesmo não sendo mau, é péssimo.
O mais ou menos é, mais do que o segundo classificado, o primeiro dos últimos. Viver o mais ou menos é pior, muito pior, do que viver o menos menos. Ou até o menos menos menos.
O mais ou menos, menos não sendo uma bosta, é uma merda."