Quase 11 anos depois de para aqui ter entrado, depois de ter saído duas
vezes da Tuna, na 1ª porque assim “supostamente” ditava o fim do meu curso, e
que depois acabei por não sair e ficar Magister, e a segunda por ter ido para
fora do país mas sem nunca ter parado as aventuras com a Tunabebes. Concluo que
não posso dizer que sairei da Tuna porque já percebi que isso eu nunca farei.
Mas tive de me adaptar, tive de mudar e de ir caminhando com o passar de
cada ano. Adaptei-me a novos instrumentos, adaptei-me a novos tunos, adaptei-me
a novas regras, eu próprio fiz novas regras, até eu quebrei regras....
Eu não me considero um Tuno antigo, porque a minha geração foi a primeira
do chamado Bolonha, foi aquela que sofreu a última ditadura dos antigos
universitários com inúmeras matrículas, imensas tradições académicas, histórias
e aventuras. Mas ao mesmo tempo sou da geração que teve de se adaptar ao que
veio a seguir. Era como ter de aprender algo que não iria meter completamente
em prática, pois seria impossível viver certas coisas de certa forma com quem
vinha para aqui apenas por um ainda mais curto espaço de tempo e que não se
interessava tanto por esta história.
Esta foi a minha batalha e esta foi a minha tarefa enquanto Magister. E
acreditem todos eles têm uma diferente. E talvez por eu ter sido da 1ª geração
da mudança, para mim tenha sido super fácil aceitar a nossa junção com os
Rolha.
Para mim foi um caminhar que me deu inúmeros amigos para a vida, para mim
foi o auge dos tempos académicos, nunca troquei algo pela Tuna, deixei de ir a
casa pela Tuna, deixei de ir ver a família algumas vezes pela Tuna, é algo que
faz parte da minha história, para um dia mais tarde eu ter até levado toda a
Tuna para dentro da minha casa e a interagir com a minha família.
Nunca escolhi estudar em prol da Tuna, sempre fui primeiro à Tuna, ironia do
destino, apenas fiquei mais meio ano que o previsto para acabar o curso. Era e
é o que me fazia feliz, era e é o que me ajuda quando preciso de motivar-me e à
minha rotina ou esquecê-la. E assim se mantém até encontrarmos algo
“semelhante” que assuma o mesmo papel. É bom ver que os principais amigos que
daqui levei, hoje são aqueles com quem partilho momentos, jantares e casas uns
dos outros e por isso não mais faz sentido para mim ter de aqui vir lutar por
algo, neste caso a universidade, ao qual já não pertenço.
Sobrevivi ao auge da Tuna com antigos tunos com regras impensáveis, vi a
Tati e o Koida enquanto Magisters acabarem com os pequenos grupos dentro da
tuna que estavam a prejudicar o avanço da mesma. Mas o principal desafio estava
para vir. A cena é que entramos para aqui com o nosso grupo, aquele só nosso,
que entra connosco. E só depois nos misturamos com os outros. Este “meu grupo”
não saiu todo da Tuna ao mesmo tempo e foram saíndo um por um, e cada um deles
foi um teste à minha resistência na Tuna. Sobrevivi... e depois disto ainda
tive de sobreviver ao declínio da Tuna, e aí sentimos na pele o que era
pertencer ao Bolonha ... sobrevivemos à queda de membros drasticamente, às
atuações de 5 ou 6 elementos, e então ainda decidiram testar-me como Magister e
tive de forçar as minhas baterias a lutar por algo que estava a perder
importância para mim a uma velocidade drástica, e eu tinha acabado o curso.
Mas fiz dessa a minha batalha novamente, enchi a Tuna com um calendário de
atuações e ensaios quase todas as semanas, novos elementos, novas regras e aí
notou-se que eu já era de outra geração, pois tive de adaptar algumas regras
para podermos sobreviver aos tempos que estavamos a passar.
E acabou. Saí naquele momento em que vi que estava encaminhado e foi a
melhor forma de sair, nomeei eu mesmo quem eu quis que continuasse a mandar
para ter a certeza que aquilo se cumpria. E fui embora.
Aí foi a pior prova de todas. Ter de encontrar a minha rotina sem este
escape foi horrível, foi incansável... para mim não foi fácil ... pois eu era
aquele que trocava tudo para ir a aventuras académicas ... eu não queria voltar
para casa, eu não quis voltar para o Alentejo, eu ainda nem tinha ganho a
aposta que tinha feito enquanto caloiro de um dia vir a ser Tuno Honorário
desta Tuna que tanto me estava a massacrar com praxes.
Na minha história pessoal, eu nunca pertenci ao Alentejo, foi aqui que
encontrei a minha casa, foi aqui que comecei a viver, e por isso me custou
encontrar um rumo quando tudo acabou, e sair do país quebrou-me ...
lentamente... sempre regressei nas férias e sempre vim carregado com o traje na
mala, tinha de ser, só isto me carregava as baterias, só eles, o meu grupo, não
a universidade ou as cenas tunantes em si. E depois de mais 4 anos de férias de
trabalho passadas em tuna e a viajar de avião com o traje na mala eu consegui
vencer a aposta de caloiro e nomearam-me tuno honorário.
Foi a melhor sensação de sempre, foi a única vez que fiquei sem palavras...
mas com tantas para dizer ao mesmo tempo ...
Tempos depois e parecendo que já tinha passado toda uma vida, tomei a
decisão de comprar a minha casa e sem sombras de dúvida que não o ia fazer no
Alentejo, mas não foi de ânimo leve que escolhi voltar para Portimão. Foi
difícil e doloroso desintoxicar-me disto tudo, voltar aqui só temporariamente e
não era preciso muito para andar em cada rua sem ser “flashado” com memórias
intermináveis, boas e ... más... Foi preciso uma cura, foi preciso encontrar a
minha paz com esse passado tão bom mas que me tinha quebrado. Não fazia sentido
eu escolher outra cidade para minha casa, tinha de ser aqui. Achei que se ela antes
me tinha feito tão feliz, talvez numa nova rotina, com novos momentos eu
encontrasse essa felicidade de novo. E assim foi, casa nova e voltei.
Sempre prometi que não entrava nas velhas rotinas, mas alguns dos meus
amigos estão aqui, e eu precisava de ver com os meus olhos e vivenciar o ponto
em que eles estavam. E acabei por me ver aqui por mais uns dias.
Não considero que voltei para a Tuna, eu voltei porque eu vinha esgotado do
estrangeiro, todo o processo de trabalhar lá fora arrasou comigo, e mudar de
rotina para uma com bens pessoais que temos de manter... não é fácil... e essa
foi a razão de eu voltar temporariamente, foi encontrar o escape de novo
daquilo que me tinha feito mal e com a ajuda desta distração, sarar todas as
minhas feridas, e resultou.
Fui super bem recebido neste grupo onde apenas conhecia 5 pessoas que logo
passaram a duas, e nunca me deixaram de lado.
Mas agora que já recuperei forças para a minha nova rotina de vida, e já vi
que o grupo está ótimo e com imensas aventuras, eu preciso de ir à minha. Já
não tenho fogo para isto, já não tenho vontade para isto e é com muita
serenidade que admito isso, aceito-o. Já não me apetece ensaios, carregar
instrumentos, conduzir para atuações, sentir que precisam de mim para atuar.
Não gosto do feeling de ser bombista de novo. A minha chama sempre residiu nas
pandeiretas e é com essa mesma serenidade que aceito também que já não é o meu
lugar. Não tenho o corpo que tinha há 10 anos atrás para fazer o que tanto
gostava e o traje já se veste a muito custo, e está a pedir um fim, e essa é a
minha última batalha aqui, arrumar o traje de vez.
Foi e é uma honra ser Tunabebes, ter a Tunabebes na minha história
académica e trazer a Tunabebes para a minha história pessoal. Os meus melhores
amigos hoje praticamente todos estiveram na Tunabebes, e devo muito a eles. Não
vou dizer que voltarei sempre que puder, pois preciso de não o fazer, mas
espero que o destino me pregue partidas e cruze o meu caminho com o grupo para
eu sentir a adrenalina de novo.