Já ando há muito para falar sobre si. Há muito também que não quero exteriorizar o facto de a ter perdido, o facto de não ter o meu refúgio de inspiração e recarga de energias.
Aquela que sempre teve um calor e presença que tudo transmitia, sem nada ter de dizer.
Acho que, na verdade, a tua partida trouxe o silêncio absoluto à família. Acho que a verdade é que todos se sentem culpados com a tua partida, tu que toda a vida estiveste sempre presente para todos, no dia em que partista estavas sozinha e sem ninguém.
Todos longe, todos de boca cheia, todos de nariz empinado vangloriando-se que te ajudavam, mas no caminho para o fim, ninguém foi capaz de te proteger e levar-te para o conforto do seu lar e acho que isso ficará até ao fim dos nossos dias na consciência de todos.
Cada um à sua maneira, terá de carregar esse fardo e lidar com ele, seja de que forma for.
Eu sinto muito a tua falta, muito mesmo, a vida deu tantas voltas depois de te ires.
Não há texto para descrever tamanha perda, nem todo este tempo depois. Foi algo com o qual não lidei.
Quando te foste quase que apagavam a tua memória da existência em segundos e nenhum rasto ficou de ti após tudo o que levaram, mas a memória de ti ficou vingada em cada canto e o peso tremendo de te ter desapontado e de tudo o que deixou triste ficará connosco.
Eu distancio-me. É a minha forma de não lidar com o que te fizeram e de lidar com a minha própria consciência quebrada.
Nunca mais ninguém será digno de um exemplo como tu fosta ou de seguir as tuas pegadas embora esse fosse sempre o teu único desejo para todos.
Desculpa Avó.