Faz um mês que te foste. A minha menina, o ser que eu mais amava na vida.
Até entrares na minha vida, eu não sabia o que era preocupar-me tanto com um ser, cuidar, amar a este nível, e tu, ensinaste-me tanto... Ensinaste-me e muitas vezes através dos meus erros.
Deixaste-me um vazio que nunca mais vou preencher, com o qual não sei lidar.
A casa está vazia, silenciosa e a minha rotina está confusa e em modo automático. Estou a ter dificuldade em saber quem eu sou sem ti.
Todos os dias choro de saudades tuas e, se por algum motivo, não choro ou não te recordo em algum momento do dia, sinto-me culpado e tenho medo de perder as tuas memórias, de elas se irem apagando.
Tenho medo de não me recordar como era o teu cheiro, de como sentia o teu pelo e o teu corpo, de como soava e sentia o teu ronronar que tanto me tranquilizava, medo de esquecer todos os barulhinhos caraterísticos que fazias.
Ensinaste-me tanto e sinto que também te desiludi algumas vezes, sei que me perdoaste sempre por qualquer erro, fizeste-me-o sentir, mas essa dor da culpa que sinto vai sempre caminhar comigo.
A decisão de te deixar partir irá sempre pesar em mim e carregarei para sempre esse coração partido e quero carregá-lo porque no fundo do meu peito sinto que te falhei, sinto que fracassei como pai em vários sentidos.
Para mim falhei, apesar de saber perfeitamente que a tua vida seria tão mais limitada que a de qualquer humano. Simplesmente tive pena que não tivesses partido de velhinha em sonho como sempre pedi aos céus, e que eu tivesse de tomar a decisão da tua partida.
Faria tudo novamente para não sofreres, foi uma decisão rápida, instintiva. Eu podia acrescentar segundos, minutos, horas ou dias para estar mais um bocadinho contigo, mas deste-me a entender que eu podia avançar e deste-me os melhores últimos momentos.
Gostava de saber se transitaste para algum lugar onde estás feliz à minha espera e a colecionar mais por-do-sóis, sem dor e em plena liberdade, a ronronar enroladinha com uma leve brisa. Mas ainda bem que nada sei, pois se soubesse que há algo mais onde podemos estar com quem mais amamos, acho que muitos de nós tomávamos a escolha de partir de livre vontade.
E a minha rotina era perfeita só contigo e eu queria tê-la valorizado mais, ter-te valorizado mais.
A tua partida deixa a minha rotina muito vazia e os meus objetivos de vida ainda mais vazios e confusos, sem sentido.
A tua partida veio mostrar-me que ninguém passa realmente por uma perda semelhante e muitos não sabem as palavras certas a dizer-te, porque também não as há, e dizem coisas sem sentido não valorizando ou não reconhecendo que a perda de um animal é válida. Acham que deves seguir em frente rapidamente, que "a dor passará", "suavizará", "arranjas outro", "há tanto gato abandonado e a precisar de ser adotado".
Estou vazio e desiludido com todos e comigo. Estou sozinho sem ti, sozinho com a dor... e ninguém vê, ninguém reconhece, ninguém valida... e vem a solidão e eu vejo as pessoas e falo com elas, mas nada do que dizem me interessa, nada me conforta, nada ameniza o que sinto.
Obrigado Spears pelo ser que foste na minha vida durante dezasseis anos repletos de aventuras, fases boas e fases más, aprendizagens, amor incondicional, fidelidade, histórias e memórias. Não podia ter escolhido melhor companheira de vida. Faria tudo novamente, faria melhor se pudesse. Sinto a tua falta, uma dor que não sei reparar.
Agora resta-me saber o que fazer com a minha vida, com o meu coração, não sei se conseguirei amar alguém, ou que alguém me ame, ou até se o campo amoroso será algo no meu futuro. Não sei onde me irei encaixar profissionalmente ou se algum dia o meu campo profissional me dará a estabilidade financeira que nunca atingi e destruiu o meu ego e destruiu o meu orgulho até nos meus momentos contigo.
O tempo o dirá.
Por hoje deixo-te o meu coração, embora quebrado, será sempre teu. Amo-te Spears. Amarei sempre. O teu Papi.