Como se
desiste de um ponto que definimos para a nossa “Bucket List”? Pois é, difícil,
mas tem de ser. Aquele gosto que eu teria em ser Tuno Honorário da minha
estimada Tunabebes, vou ter que abdicar dele, com imensa pena minha.
Sabem…
para ser um Tunante de gema é preciso pedalar muito, não foi quando cheguei a
Tuno na hierarquia, nem foi quando cheguei a Magister, ou sequer no dia em que
saí da Tuna que eu entendi o verdadeiro espírito de um Tunante, posso ter
vivido a 100% a vida de Tunante, mas só hoje a entendi e a sinto no meu
coração, na minha pele. Ainda apesar de tudo o que possa ter escrito
anteriormente sobre a minha Tuna e vivências nela.
Eu
entrei para a Tuna como mais um pretexto de aproveitar a minha liberdade e vivências
universitárias ao máximo, usei o pretexto da minha madrinha me obrigar a
assistir aos ensaios e nunca mais parei de ir. Como todo o caloiro eu fui
praxado, e sendo que ainda haviam imensos antigos membros, a chamada “old
school” eu fui muito bem praxado, eu lutei para merecer as minhas ceroilas e o
restante traje de Projecto a Caloiro e continuei a lutar por merecer o garrafão
quando cheguei a Caloiro. Foram óptimos e péssimos momentos, pois nunca gostei
de me expor, por isso praxes como usar perucas e etc deixavam-me fulo pois era
como se tivesse a mostrar a minha sexualidade que eu tanto queria manter em
segredo. Havia praxes que eu nunca concordei, abusos e parvoíces que não tinham
sentido, isso deixavam-me de trombas por muito tempo, era a minha única forma
de vingar-me do que me faziam, nunca respondendo ou recusando o que me era
mandado. Por vezes era injusto ver que os outros caloiros que estavam comigo
não tinham o mesmo tratamento que eu pois os seus padrinhos e madrinhas os
defendiam e a minha fazia-me sentir tudo aquilo na pele, coisas pelas quais nem
ela passou. Nestes tempos decidi tornar-me útil e comecei a aprender flauta
para poder entrar em algumas músicas, coisa que fiz rapidamente. Passado algum
tempo aventurei-me no Bombo que dominei com bastante rapidez dando-me a
liberdade de ir para a fila de Tunos em actuações, tive o prazer de criar de
raiz o ritmo para algumas músicas da minha Tuna e renovei os outros já
existentes.
Continuei
firme até ao fim, podia não ter a amizade de todos pois demoro muito a confiar
e a dar-me a conhecer, mas tinha lá amigos. Se estive demasiado tempo a fazer
funções de Caloiro? Tive. Se pensei em sair se tal não mudasse? Pensei. Mas
depois lá mudou.
No meu
segundo ano passei para Projecto a Tuno, posição em que não mandamos nada nem
praxamos, e apenas ajudamos os Caloiros quando estes não dão conta do recado.
Mal dos meus pecados, não entraram caloiros para a Tuna neste ano e eu e
restantes voltamos a fazer tudo o que era digno de um caloiro fazer. Neste ano
aprendi a tocar o Jambé na Tuna e aprendi a fazer um número com as nossas Capas
do traje em parceria com uma Tunante. Ainda tive a oportunidade de utilizar as
Clavas e o Pau de Chuva em algumas músicas. Acabei o ano lectivo a aprender
Pandeireta, o instrumento que me despertou mais atenção até hoje. Este grau
académico teve também o seu tempo devido, nem mais nem menos.
Continuei
para o suposto último ano de universidade, a Tuna passou por perdas de membros
muito importantes e certas medidas tiveram de ser tomadas para a Tuna
continuar. Naqueles anos a Tuna era como um grupo na Universidade, dedicar-se a
ela era ao mesmo tempo assinar contrato indeterminado e ter de a defender
contra os imensos “haters” que havia na Universidade, que eram imensos. Eu
próprio tive de ir contra muitos desde o primeiro até aos últimos momentos em
tuna, mesmo que isso tenha implicado que fossem meus amigos aparte daquilo
tudo. Fui severo em praxe, e em manter o espírito académico e não permitia
nunca que se infringisse qualquer regra.
No meu
último ano, aos poucos fui-me aproximando da outra parte da tuna que ainda não
tinha muita afinidade, criei bons amigos e decidi quem queria ouvir, quem
queria que me aconselhasse, e então essas pessoas abriram-me vários caminhos. A
Magister depositando então total confiança em mim, nomeou-me Tesoureiro, a 3ª
das três posições de poder da Tuna, eu tratava da parte financeira da Tuna e
todos me respeitavam. Nunca usei tal função para praxar quem quer que seja de
Tunantes, apesar de este grau me permitir praxar todos os que antes me tinham
praxado, mas isso seria no mínimo estranho de alguém fazer em três anos de Tuna
e decidi manter-me no meu lugar.
Consegui
entrar de vez para as Pandeiretas com muito gosto meu, nas quais criei também
alguns ritmos para músicas e renovei outros; nunca deixando de ser o Ensaiador
do Bombo para quem quis aprender, e hoje criei três bombistas depois de mim, e
uma flautista.
Foi
complicado para o fim, pois ainda que estivesse na Pandeireta por vezes eu não
tinha a liberdade de fazer o que queria por que já estava na Pandeireta antes
não mo permitir, então também tive a fase de querer desistir da Pandeireta e
comecei a dar uns toques no Estandarte, aprendi um pouco, mas depois lá voltei
para a Pandeireta.
Neste
ano tornei-me muito próximo daqueles que tinham mais influência de matrículas e
votos, e era um ano em que as pessoas estavam saturadas disto, não havia forças
para lutar porque não havia espírito novo para lutar pela tuna, então no fim
deste ano tunante todos queria fazer as malas e arrumar de vez o traje e a
Tuna, eu inclusive, que ao mesmo tempo desta saturação estava a passar por
outros problemas. Resolvi então despedir-me da Tuna num último jantar, no qual
escrevi umas palavras para dizer a cada um de agradecimento e também de
despedida.
No calor
do momento, concordámos todos em juntarmo-nos no início do ano lectivo para
mais um ensaio e decidir o futuro da Tuna, votarmos nos próximos órgãos de
poder.
Esse foi
um dos meus erros, ou não. Indo a esse ensaio e votando, foi o mesmo que
assinar sentença para ficar na Tuna, e assim foi, não só fiquei como me
nomearam a mim Magister. Por mais que tivesse imensas ideias adormecida do que
queria mudar na Tuna, não tinha forças para fazê-lo sozinho, e orgulhoso como
sou, o meu ano de Magister não podia ser o ano em que quase todos saiam da Tuna
e eu la ficava a fracassar com dois ou três. Falámos, eu expus o meu ponto de
vista e disse tudo aquilo que sentia, aceitei ficar Magister e eles aceitaram
ficar todos para me apoiar mais um ano.
O meu
papel como Magister foi um pouco limitado no sentido de, eu ter muitas ideias,
mas ter de meter à frente dessas ideias outras que tinham de ser feitas e eu
não tinha vontade de perder tempo nelas. Eu tive de começar por tentar mudar a
imagem da Tuna na Universidade e outras Escolas e Tunas em redor. Para tal
nomeei o melhor Tunante a nível musical para nosso Ensaiador, dando-lhe total
liberdade para fazer o que quisesse a nível vocal e instrumental, essa
liberdade motivou-o e fez um óptimo trabalho transformando completamente os
nossos tunantes a esses níveis. Nomeei quem me sentia mais à vontade para estar
no “poder” comigo, e deixei sem qualquer importância que assim tinha de ficar.
Eu tinha
de dar um descanso a músicas que eram incansavelmente tocáveis, que as pessoas
gostavam mas que ainda assim precisavam de ouvir coisas novas, coisas em que em
vez de saberem a letra, prestavam atenção aquilo que estávamos a cantar. Então
este ano eu tinha decidido que em vez de criar uma música nova eu iria trazer
algumas adaptações para a nossa Tuna, em parte adaptações em memória da tuna
masculina da Universidade que tinha acabado no ano anterior, e em outra parte
algumas que me despertavam interesse trazer para a Tuna, e por fim em vez de
ensaiar aquelas já muito batidas, ensaiávamos outras mais antigas ainda e que
tinham estado adormecidas até então.
Como
Magister eu renovei as redes sociais da Tuna, restringindo a Tuna apenas
àqueles que dela gostavam, renovei o Site da Tuna e Blogue com informações do
interesse geral, e comecei a dar funções aos Tunos Honorários que pensavam que
só por ser Honorários não tinham nada a fazer, a meu ver não era assim. Decidi
então mudar os Regulamentos da Tuna, aquelas regras extremas, eu mudei tudo,
reescrevi tudo por mim. Ao mesmo tempo entrei para a Comissão de Regulamentação
do Traje e AAUALG e renovei também com outros, os regulamentos de praxe da
Universidade.
Só por
aqui, o meu papel vai ficar lá bem vivo por muitos anos.
Eu fazia
de tudo para fazer publicidade à Tuna, e comparando com o Plano de Actividades
de anos anteriores, este foi o ano de mais actuações, arruadas e tudo mais que
tínhamos tido até hoje. A Tuna estava com os bolsos bem cheios, os Tunantes
eram agora uma família, não havia grupos, e chegámos a uma fase em que já era
um fim-de-semana na casa de cada um, e por vezes nem pagávamos. Cheguei até ao
ponto de um Retiro em minha casa no Alentejo de 3 dias, no qual a Tuna não
gastou rigorosamente nada que a minha família lhes ofereceu tudo, incluindo
actividades.
Sendo
que os tunantes tinham decidido ficar, ainda assim eramos poucos e decidi
fechar os olhos a algumas tradições antigas e permitir a entrada de mais
caloiros e desta vez permiti que pessoas de mais de uma matrícula pudessem
entrar directamente para Projectos a Tuno e usar o seu traje, com isto consegui
que sete alunos entrassem para a Tuna e mais dois caloiros. Muitos estiveram
contra, mas eu ainda assim achei que tivesse sido a medida a tomar. Foi a
medida que tive de tomar.
Depois
disto tudo em conjunto com a Tuna que seguiu as minhas indicações eu organizei
o nosso encontro de Tunas, o Enportunas e posteriormente a actuação para os
finalistas, o Ecos do Arade. Além destes ainda organizei uma actuação para os
fundadores da nossa tuna. Estavamos no auge, tínhamos visivelmente e
audivelmente melhorado, estávamos num nível acima, e agora podíamos ganhar
outros prémios além do prémio do espírito em tuna, e assim ganhámos. Levámos
para casa o prémio de “Melhor Tuna”.
Por fim
consegui encaminhar a nossa Tuna para um apadrinhamento pela Tuna Bruna, sendo
eles de tamanha solidariedade e companheirismo para connosco eu arranjei tudo
para que eles fossem os nossos padrinhos.
Eu poderia
arrepender-me de algumas medidas que tomei, pois hoje essas medidas tiveram
consequências negativas, mas naquela altura foi o que tive de fazer para tudo
crescer e se manter em pé e com bases. Ironia do destino, tive um ano e pouco
como Magister e o destino teve de me tirar de Portimão e tive de abdicar dessas
funções, despedindo-me numa última actuação, desta vez era a sério, eu sabia
que não havia volta a dar, e isso apertou-me imenso o coração. Eu tinha chegado
onde sempre ambicionei, ao topo.
A partir
daqui só me restava respeitar o lema pelo qual todos os Tunabebes se regem, “Uma
vez Tunabebes sempre Tunabebes”, e como ex-tuno isso quereria dizer ir vê-los
sempre que perto deles estivesse, e dar-lhes todo o meu apoio. No meu caso que
iria para a Suiça isso implicaria fazê-lo sempre que fosse a Portugal. Aceitei
ir para um retiro com eles antes de viajar para fora do país e a vez que fui a
Portugal fui ao aniversário deles.
Mudou
tanta coisa que me deixou triste, eu cheguei lá e era como se fosse um mero ex-tuno
que nada fez pela Tuna, alguém que não tinha opinião e que ninguém respeitava,
nem a própria afilhada ou caloiros, o que me fez revoltar e soltar a minha veia
de praxante naquele jantar.
Fui
embora, passei algum tempo na Suiça até que encontrei uma Tuna cá, composta por
pessoas que decidiram mostrar a musica tunante além fronteiras, e sugeri a
ideia de eles convidarem à Suiça a minha tuna, e assim começou, comecei a dedicar-me
de novo a algo que eu como ex-tuno já não tinha necessidade de me dedicar. Decidi
fazê-lo sem esperar nada em troca, mas ainda assim na esperança de reconhecerem
o meu esforço e me passarem a Tuno Honorário, e assim eu ter alguma motivação
para mesmo à distância continuar a lutar por esta tuna. Pelos vistos não o
mereci, e foi a minha última cartada, pelos vistos tudo o que passei nestes
últimos sete anos, o que fiz e lutei pela Tuna desde que não era ninguém como
Caloiro até que me coube a mim o papel de orientar e mesmo depois de sair.
Agora
resta-me fechar esta porta de vez, arrumar traje de vez e este livro tunante
que tantas vivências me trouxe, tanta alegria, tanta lágrima; um refúgio para
mim nos meus piores momentos.
“Ai tu
vais vais, tu vais partir, e o teu traje vais deixar de vestir, e nesse dia que
sensação, tu vais sentir no teu próprio coração”.
só posso constatar o quão triste é... e que sim, merecias essa "promoção"
ResponderEliminara única hipótese que vejo para isso é terem pensado que, por já estares à tanto tempo afastado, já não dares importância a essas coisas
mesmo sim, tendo sido tu quem revolucionou a tuna, e o crédito por tudo o que fizeste ter sido "esquecido"
sabes que quando as coisas não são relembradas, são esquecidas.. e com o passar do tempo, os mais antigos que presenciaram toda a tua evolução e revolução implementada, vão saindo.. ou apenas quando te vêem se lembram do que fizeste
leva ou não a peito, não sou "ninguém" para te julgar
sou apenas "alguém" que te apoia
bjins já com saudades
As ultimas cartadas foram jogadas, foram bons os momentos contigo, com eles, mas agora já não é o meu "jogo", já nâo quero mais ser um peão ou um peão suplente desta maratona.
ResponderEliminarEspero que tenham sorte no futuro.
Rik *