domingo, 14 de junho de 2015

Carta à Avó

Evoluir, crescer, tornar-me melhor e maior, não aos olhos dos outros, mas aos meus próprios olhos, foi esse o projecto quando saí do Alentejo há alguns anos atrás e hoje, não posso estar mais contente pela pessoa que sou.
Tornei-me num ser em tudo diferente daquele que antes corria pela aldeia sem horas para nada, dias enormes passados entre amigos ou com a minha Avó que como uma mãe de tempos que não eram os meus, me transmitia valores que me moldavam e me faziam passar o meu tempo das formas mais impensáveis para alguém da minha idade.
Na aldeia tudo era simples, a família era unida e eu andava de casa em casa, só porque sim. Na rua todos se conheciam... pelo menos todos me conheciam. Na minha família sempre houveram planos e padrões a obedecer para não sair das normas... tens de estudar, tens de ter boas notas, tens de ter um bom emprego, pelo menos um bem visto pelos outros - pensavam eles; aos dezoito anos tens de pensar na carta de condução; deverias ir à Tropa que faz de ti um Homem; temos de conhecer as tuas namoradas; tens de casar algures depois dos estudos, pelo menos depois dos teus familiares mais velhos e antes dos mais novos. E quando isto não acontecia havia sempre forma de te fazerem sentir da pior forma possível.
Eu ... adoraria ter feito isto tudo para que se orgulhassem de mim, mas o turbilhão no meu cérebro exigia que eu fosse muito aquém desta rotina de vida.
Mudar a sociedade ou valores requer uma força e tempo que nunca quis ter, não sou um ativista, e à medida que fui crescendo e percebendo o quão diferente eu era, foram sendo cada vez menos as vezes em que aceitava adaptar-me e ser alguém que não era, apenas para que não houvessem conflitos de ideias. Nunca quis argumentar de forma a que me compreendessem e aceitassem. Calava-me e virava costas, e preferia acreditar que as pessoas conseguiriam concluir algo um dia e talvez chegar a um consenso ou abrir de olhos para a vida.
Eu segui. Já não volto à aldeia, é muito doloroso ter de caminhar de cabeça baixa pelas ruas onde antes eu corria livre, ainda que com a mesma cabeça baixa e anos mais tarde ainda hajam aldeões que me reconheçam e chamem pelo meu nome.
Nesta aldeia de hoje, o tempo continua a passar lentamente e aquele rapaz que antes tinha mil e uma formas de se ocupar, hoje não sabe o que aqui fazer longe de modernices e tecnologias.
De vez em quando ele ainda recorda os velhos amigos, ou pelo menos, aqueles que considerou como tal, e magoa, não sei o que a vida lhes reservou. A partir do momento em que para eles era embaraçoso ter um amigo como eu, eu próprio decidi caminhar noutra direção. Revoltava-me ter de explicar a minha forma de agir ou ser, ou até mesmo uma sexualidade que com aquela idade eu desconhecia.
Na aldeia, tudo continua simples, a família já não se encontra unida pois hoje apenas existe entre eles um jogo de superioridades e bens materiais que nada me diz.
Hoje, tenho de voltar à aldeia, esta minha mãe de outros tempos - a minha avó, que o tempo não quer envelhecer, ainda se encontra na mesma rotina.
Por ela, inspiro e encho-me de paciência para suportar estes ares (e os 40 graus alentejanos). Para ela ainda tenho de ser aquele rapaz com planos futuros e mais objetivos para dar como desculpa de não ser alguém realizado com 28 anos (isto aos olhos dela); e para não ter de abordar assuntos muito evoluídos e aguçados para a sua empoeirada mentalidade, apenas finjo.
Gostaria de dizer-lhe que cresci, que sou uma pessoa intelectualmente estável, amadurecido pelas minhas experiências de vida; talvez duro de mais para a minha idade. Dizer-lhe que estudei, apesar de nunca ter sido o melhor e ter concluído todos os meus estudos embora lentamente. Que tenho um bom salário embora não exerça nada para o qual tenha estudado, mas estou feliz. Dizer-lhe que sim, consegui a carta de condução aos 18 anos como previsto, ainda que odeie conduzir e não planeie comprar carro ainda. Que agradeci aos céus não ter sido obrigado a ir à Tropa pois a minha alma já estava suficientemente quebrada pela sociedade.
Dizer-lhe que nunca lhe apresentei namoradas, mas houveram namorados que talvez tivessem adorado tê-la conhecido... e tê-la chamado de avó. E por fim, dizer-lhe que ainda não casei por ser exigente de mais com o que quero... talvez por todos os valores que me incutiram eu tenha de ser alguém forte e independente a todos os níveis... talvez porque eu tenha aprendido à força que tenho de sobreviver por mim mesmo... ou talvez pela rigidez de tais valores eu hoje não saiba como fazê-lo com alguém.
Hoje, não bastasse a batalha de línguas que tenho no meu cérebro, e me esgota quando tento ter uma conversa normal, também tenho de batalhar para me relembrar do que significam as tuas expressões alentejanas (como há pouco quando me queixava do calor e me dizias para abrir o "bestigo"). Mas é assim que eu tenho de aguentar... aos teus olhos posso não ter ido muito longe, para ti, tal como para muitos, emigrar é uma forma de sobreviver ou salvar o que ficou em Portugal, mas a realidade é que para alguns é uma mera opção, um recomeço quando mais nada há para lutar.
A prova, é que fui para longe, cresci, até eu envelheci, vejo-o nas minhas mãos, nos meus olhos, na minha mente e alma, e a prova é que aqui volto... Olho-me ao espelho e volto a ser "aquele", opto por tocar em feridas saradas pelo tempo e pego nas máscaras esquecidas que outrora tanto usei, isto para passar mais um momento contigo.
E sabes... ao olhar-me no espelho não posso deixar de reparar que tenho algumas das tuas expressões corporais e faciais... mas o sorriso ... sim o sorriso... é igualzinho ao teu! 

3 comentários:

  1. Fizeste-me chorar com este texto..como me identifico com ele, apesar das nossas experiências de vida terem sido diferentes...
    Eu própria não alimentei as vontades da minha avó ou de todas a pessoas da minha aldeia...não segui o convencional...e isso magoa as pessoas mais velhas que amamos e que por vezes esquecemos que nasceram uns 50 e tal anos antes de nós e tudo era diferente...com a idade deles, não podemos exigir que mudem por nós...ainda que eles que exijam que mudemos por eles...resta-nos tentar encontrar um equilíbrio entre o que eles desejaram para nós e o que nós somos...resta-nos apenas tentar amenizar o desgaste das esperanças não concretizadas..
    Meu deus, é lindo este teu texto nem sei mais o que dizer...
    bjs

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. And yet ... os melhores textos são escritos no Alentejo ... será ironia ?! ... Pois é ... é um cansaço interior que tenho e massacre do meu ser, cada vez que lá vou, mas que por mais que adie tenho sempre de lá ir para mais um momento com ela, antes que seja tarde de mais...
    Bjs babe.

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