sábado, 14 de janeiro de 2017

2016

Janeiro já vai no seu caminho, rumo para mais um ano preenchido de novas aventuras na vida de todos.
Mas este ano que ficou para trás não pode ser ignorado sem antes uma pequena reflexão na grande aventura que foi, e nas mazelas que me deixou.
Em 2016 experienciei, pela primeira vez, algo em que não acreditava, a depressão. Esta menina pode dar muitas dores de cabeça a uma pessoa se não for levada seriamente. Algo que se vinha arrastando com pequenos traços desde a minha temporada na Suíça que muito foi prolongada, quando deveria ter sido rapidamente terminada para não chegar onde chegou; foi piorado com um trabalho que em muito apunhalava a minha personalidade, fazendo-me ser uma pessoa que eu não gostava de ser, enfrentando outras que eu em dias normais ou no meu estado são não enfrentaria. Isso danificou-me e levou-me a extremos. A culpa foi minha, podia ter jogado tudo ao ar e ter regressado a Portugal, mas ia para onde e fazer o quê. Eu tinha a minha casa, mas se não desse um passo bem dado tudo poderia ir por água a baixo... ou no pior das hipóteses, não ter o conforto que tanto tinha ambicionado para mim... Não sou ganancioso mas queria estar confortável, e por isso sacrifiquei o resto da minha sanidade por mais uns meses na Suíça para preparar tudo minimamente.
Depois do fim do ano 2015 pasmei em casa na Suíça inscrito no desemprego, com falsas procuras de trabalho e alinhando em atividades que eles achavam que me iriam reintroduzir no mercado de trabalho. Aderi a tudo apenas para conseguir no fim do mês ter um salário, que já não era aquilo a que trabalhando estava habituado, mas ainda assim melhor que um salário português, logo ainda que me obrigasse a passar meses apertados e sem sair de casa na Suíça, tinha de ir avançando algo todos os meses na minha casa em Portugal. Assim foi... de janeiro a junho abstrai-me do mundo... quase nunca saía, não fiz quase nada da minha vida, e nisto provoquei em mim algo que iria ser a gota venenosa na minha depressão, um aumento de peso enorme que ajudado pela depressão que já tinha levou a mesma a proporções que não tinha ainda vivenciado e com problemas de saúde que advinham desta.
Aqui muito do que tinha planeado foi cortado por metade pois juntamente a este percurso, tinha agora de ir a consultas de médico e fazer análises para saber o que tinha. Estar doente na Suíça sai muito caro .. só fui mesmo quando estava nos limites, quando a depressão bloqueou os meus intestinos ao ponto de eu ver o sangue sair no WC ao tentar defecar. Com estes custos tomei a decisão de fazer pequenas escapadas a Portugal.. concluí que pagar a viagem e os médicos em Portugal sairia mais barato do que me tratar na Suíça e assim o fiz... entrei então num mar de consultas e testes para saber o que tinha... e denoto ... nunca me tratando da depressão... fiz tudo e mais alguma coisa, onde a única conclusão a que chegaram foi que tudo era provocado pelo meu excesso de peso... e nisto se foi mares de dinheiro.
Estas escapadinhas a Portugal permitiram-me passar mais tempo com aquele que seria agora o rapaz que está comigo, conhecê-lo melhor, e darmo-nos a conhecer um ao outro, e assim foi. Sendo ainda mais difícil os outros espaços de tempo que regressava para a Suíça a fingir as minhas procuras de trabalho.
Meteram-se depois atividades do desemprego que me obrigaram a não sair da Suíça, pois inscreveram-me num curso de técnicas de procura de emprego, que iria refazer o meu cv e carta de motivação e dar-me algumas técnicas para entrevistas de trabalho e dar-me também algumas dicas de postura e imagem. Fui obrigado a aceitar, ainda que o que eu queria era escapar-me dali. No fim acabei por achar aquilo produtivo não só no objetivo que tinha mas porque naquela altura me fez bem obrigarem-me a sair de casa.
Estava torturado mentalmente, tinha engordado visivelmente aos olhos de todos, estava farto, dinheiro para mim não ia acumular, não avançaria mais projetos ali desempregado, não podia ajudar mais a minha família na minha situação e a minha saúde não ia melhorar... não iria adiar mais, tinha de ser ali tomada a decisão de partir. Fiz o pedido de transferência de desemprego que me dava três meses para ir procurar trabalho em Portugal, um acordo na Europa que a UE tem com alguns países e meti-me em contagem decrescente ... anulei tudo o que havia para anular dos cinco anos da minha vida naquele país... paguei o que faltava e deixei o essencial para me permitir sair três meses. Nunca pensando voltar atrás.
Com este nervosismo da mudança... e custos que tinha com a mesma, pois era mudar tudo de casa.. os meus bens todos de volta para Portugal..e agora não era apenas uma mala de viagem..era tudo mesmo, e ainda a gata. Mudar tudo e havia passos a dar em cada dia, mas a planear tudo eu sou bom. Quase tudo correu como planeado, mas fui lidando como pude com os imprevistos.
A esta depressão juntou-se uma esperança de que tudo ia melhorar, mas um nervosismo com esse passo há muito pensado, de inúmeras formas diferentes, e também uma tristeza por deixar a minha família para trás.
Hoje já vou conseguindo lidar melhor com a distância, pois estava já muito preso a eles todos, mas naquela altura pensei que não ia conseguir aguentar a pressão.
Hoje vejo o quando negativo foi este apego à minha família, no sentido de eles dependerem muito de mim e eu gerir as minhas decisões em prol deles. Gosto da proximidade, mas cada um tem de cuidar da sua vida. Nós ajudamos mas temos de manter a distância de segurança. Fui aprendendo isso apenas nestes ultimos tempos.
Mudei-me com tudo às costas, foi uma aventura que não esquecerei... a adrenalida de encaixotar coisas desde janeiro... a emoção de esvaziar aquele estúdio sufocante, o limpar tudo e vê-lo vazio para novos inquelinos... aquelas regras stressantes de encontrar um novo inquelino, o entregar as chaves. Até o ponto de viver o último mês em casa da minha mãe. Acho que a Suíça tinha de acabar como começou.
Ultimos dias peguei na gata e duas malas e fui para o aeroporto. Se soubesse o que sei hoje, não fazia a minha gata passar por aquela viagem de avião novamente... nem me fazia passar por isso... foi torturante para ambos. Julho, agosto e setembro foram passados em paz, praia, descanso, mais falsas procuras de trabalho, agora em Portugal. Eu sempre planeei aproveitar tudo até ao fim. Ainda eram três meses de salário suíço então tinham de ser aproveitados, de uma forma portuguesa, isto é, no descanso... julho e agosto pelo menos. Foi o meu verão há muito merecido.
Com apenas um mês para encontrar trabalho e endireitar a vida, setembro tinha de ser para encontrar trabalho, assim o fiz com unhas e dentes, e algum descanso claro, mas dei de tudo para encontrar algo. Até comecei numa tentativa de ser rececionista numa empresa americana que vendia aspiradores porta a porta, onde mais tarde vim a descobrir que até os rececionistas quando não tinham nada para fazer, tinham de ir vender também porta a porta. Foi o suficiente para desistir no segundo dia. Apenas acho que não tinha de me sujeitar a uma fase de vida com algo que não me identificava.
Eu sei que arrisquei de mais... mas não queria trabalhar fora da minha área novamente... eu acabei o meu curso em 2010 e nunca tinha feito nada em turismo a não ser ... ser turista ... chega... arrisquei ..fui exigente na minha procura, e ainda mais nas entrevistaa que fiz, e sempre sincero.
Sei que a imagem do que quero, é um pouco diferente da realidade que muitos vivem aqui no Algarve, mas eu vou manter aquilo em que acredito, e ser quem sou, lutando pelo que gosto. Não somos todos iguais e mais dia menos dia caímos num trabalho e numa rotina que é mais ou menos adequada àquilo que queremos.
A minha neste momento é ser Night Auditor... não é um trabalho de sonho, tive de reeducar-me e ganhar hábitos de trabalho e rotina, de dormir, de comer, enfim, toda uma rotina nova para poder aguentar o trabalho.
Não sou um rececionistas, mas aqui posso ir lentamente aprendendo tudo o que o rececionista faz, pois faço a mesma coisa que ele, apenas ocasionalmente, logo tenho tempo para lentamente ir aprendendo tudo e me ir aperfeiçoando. Ao mesmo tempo tenho funções do departamento de reservas, marketing e contabilidade, logo dá-me outras perspectivas e experiência também. Consigo ir estudando e treinando as línguas, que já tava destreinado, como o inglês e o espanhol e assim vou na minha rotina.
O salário, do ponto de vista português, não é mau, pois é com as horas noturnas, durmo de manhã e acordo ao início da tarde. Ou seja, quando as pessoas estão a sair dos trabalhos eu estou a acordar, e acabamos por ter livre a mesma parte do dia. Quando elas vão dormir, eu vou trabalhar. Tudo está normal.
Tirando isto, eu notava que a minha depressão não melhorava, mesmo tendo decidido inscrever-me num ginásio para ter alguma atividade física e mexer-me mais. Sem motivação alguma para treinar, como é óbvio, mas fui.
Já para novembro – dezembro, decidi que era altura de tratar-me, o meu cérebro estava finalmente a prejudicar-me, estava a tornar-me alguém que eu não gostava, e isso estava a prejudicar-me em casa, na relação, e nas minhas relações com os outros, e antes que isso afetasse o trabalho tinha de ser controlado.
Fui consultar um psiquiatra e expus aquilo que me inquietava. Nunca quis psicólogo, eu sei identificar os meus problemas e o que me faz mal. E ali decidimos seguir por um tratamento.
Não quero estar nisto para sempre, mas vou lutar por mim e fazer o necessário para melhorar. Desde então tudo tem melhorado a olhos vivos, não só no trabalho e em casa, mas na relação, na minha auto-estima e corpo, no stress e na minha saúde.
Identifiquei melhor o que me prejudicava e estou a lidar com isso. Tenho de encontrar um ponto melhor de equilíbrio com o meu irmão e tentar ajudá-lo sem me afetar. Mas quero o melhor para ele. Vamos ver o que acontece.

2016 foi uma luta de cinco anos que venci com muitas cicatrizes. 2017 vai ser para colocar tudo no lugar e seguir em frente com novos projetos.