Janeiro
já vai no seu caminho, rumo para mais um ano preenchido de novas aventuras na
vida de todos.
Mas
este ano que ficou para trás não pode ser ignorado sem antes uma pequena
reflexão na grande aventura que foi, e nas mazelas que me deixou.
Em
2016 experienciei, pela primeira vez, algo em que não acreditava, a depressão.
Esta menina pode dar muitas dores de cabeça a uma pessoa se não for levada
seriamente. Algo que se vinha arrastando com pequenos traços desde a minha
temporada na Suíça que muito foi prolongada, quando deveria ter sido
rapidamente terminada para não chegar onde chegou; foi piorado com um trabalho
que em muito apunhalava a minha personalidade, fazendo-me ser uma pessoa que eu
não gostava de ser, enfrentando outras que eu em dias normais ou no meu estado
são não enfrentaria. Isso danificou-me e levou-me a extremos. A culpa foi
minha, podia ter jogado tudo ao ar e ter regressado a Portugal, mas ia para
onde e fazer o quê. Eu tinha a minha casa, mas se não desse um passo bem dado
tudo poderia ir por água a baixo... ou no pior das hipóteses, não ter o
conforto que tanto tinha ambicionado para mim... Não sou ganancioso mas queria
estar confortável, e por isso sacrifiquei o resto da minha sanidade por mais
uns meses na Suíça para preparar tudo minimamente.
Depois
do fim do ano 2015 pasmei em casa na Suíça inscrito no desemprego, com falsas
procuras de trabalho e alinhando em atividades que eles achavam que me iriam
reintroduzir no mercado de trabalho. Aderi a tudo apenas para conseguir no fim
do mês ter um salário, que já não era aquilo a que trabalhando estava
habituado, mas ainda assim melhor que um salário português, logo ainda que me
obrigasse a passar meses apertados e sem sair de casa na Suíça, tinha de ir
avançando algo todos os meses na minha casa em Portugal. Assim foi... de
janeiro a junho abstrai-me do mundo... quase nunca saía, não fiz quase nada da
minha vida, e nisto provoquei em mim algo que iria ser a gota venenosa na minha
depressão, um aumento de peso enorme que ajudado pela depressão que já tinha
levou a mesma a proporções que não tinha ainda vivenciado e com problemas de
saúde que advinham desta.
Aqui
muito do que tinha planeado foi cortado por metade pois juntamente a este
percurso, tinha agora de ir a consultas de médico e fazer análises para saber o
que tinha. Estar doente na Suíça sai muito caro .. só fui mesmo quando estava
nos limites, quando a depressão bloqueou os meus intestinos ao ponto de eu ver
o sangue sair no WC ao tentar defecar. Com estes custos tomei a decisão de
fazer pequenas escapadas a Portugal.. concluí que pagar a viagem e os médicos
em Portugal sairia mais barato do que me tratar na Suíça e assim o fiz...
entrei então num mar de consultas e testes para saber o que tinha... e denoto
... nunca me tratando da depressão... fiz tudo e mais alguma coisa, onde a
única conclusão a que chegaram foi que tudo era provocado pelo meu excesso de
peso... e nisto se foi mares de dinheiro.
Estas
escapadinhas a Portugal permitiram-me passar mais tempo com aquele que seria agora
o rapaz que está comigo, conhecê-lo melhor, e darmo-nos a conhecer um ao outro,
e assim foi. Sendo ainda mais difícil os outros espaços de tempo que regressava
para a Suíça a fingir as minhas procuras de trabalho.
Meteram-se
depois atividades do desemprego que me obrigaram a não sair da Suíça, pois
inscreveram-me num curso de técnicas de procura de emprego, que iria refazer o
meu cv e carta de motivação e dar-me algumas técnicas para entrevistas de
trabalho e dar-me também algumas dicas de postura e imagem. Fui obrigado a
aceitar, ainda que o que eu queria era escapar-me dali. No fim acabei por achar
aquilo produtivo não só no objetivo que tinha mas porque naquela altura me fez
bem obrigarem-me a sair de casa.
Estava
torturado mentalmente, tinha engordado visivelmente aos olhos de todos, estava
farto, dinheiro para mim não ia acumular, não avançaria mais projetos ali
desempregado, não podia ajudar mais a minha família na minha situação e a minha
saúde não ia melhorar... não iria adiar mais, tinha de ser ali tomada a decisão
de partir. Fiz o pedido de transferência de desemprego que me dava três meses
para ir procurar trabalho em Portugal, um acordo na Europa que a UE tem com
alguns países e meti-me em contagem decrescente ... anulei tudo o que havia para
anular dos cinco anos da minha vida naquele país... paguei o que faltava e
deixei o essencial para me permitir sair três meses. Nunca pensando voltar
atrás.
Com
este nervosismo da mudança... e custos que tinha com a mesma, pois era mudar
tudo de casa.. os meus bens todos de volta para Portugal..e agora não era
apenas uma mala de viagem..era tudo mesmo, e ainda a gata. Mudar tudo e havia
passos a dar em cada dia, mas a planear tudo eu sou bom. Quase tudo correu como
planeado, mas fui lidando como pude com os imprevistos.
A
esta depressão juntou-se uma esperança de que tudo ia melhorar, mas um
nervosismo com esse passo há muito pensado, de inúmeras formas diferentes, e
também uma tristeza por deixar a minha família para trás.
Hoje
já vou conseguindo lidar melhor com a distância, pois estava já muito preso a
eles todos, mas naquela altura pensei que não ia conseguir aguentar a pressão.
Hoje
vejo o quando negativo foi este apego à minha família, no sentido de eles
dependerem muito de mim e eu gerir as minhas decisões em prol deles. Gosto da
proximidade, mas cada um tem de cuidar da sua vida. Nós ajudamos mas temos de
manter a distância de segurança. Fui aprendendo isso apenas nestes ultimos
tempos.
Mudei-me
com tudo às costas, foi uma aventura que não esquecerei... a adrenalida de
encaixotar coisas desde janeiro... a emoção de esvaziar aquele estúdio
sufocante, o limpar tudo e vê-lo vazio para novos inquelinos... aquelas regras
stressantes de encontrar um novo inquelino, o entregar as chaves. Até o ponto
de viver o último mês em casa da minha mãe. Acho que a Suíça tinha de acabar
como começou.
Ultimos
dias peguei na gata e duas malas e fui para o aeroporto. Se soubesse o que sei
hoje, não fazia a minha gata passar por aquela viagem de avião novamente... nem
me fazia passar por isso... foi torturante para ambos. Julho, agosto e setembro
foram passados em paz, praia, descanso, mais falsas procuras de trabalho, agora
em Portugal. Eu sempre planeei aproveitar tudo até ao fim. Ainda eram três
meses de salário suíço então tinham de ser aproveitados, de uma forma
portuguesa, isto é, no descanso... julho e agosto pelo menos. Foi o meu verão
há muito merecido.
Com
apenas um mês para encontrar trabalho e endireitar a vida, setembro tinha de
ser para encontrar trabalho, assim o fiz com unhas e dentes, e algum descanso
claro, mas dei de tudo para encontrar algo. Até comecei numa tentativa de ser
rececionista numa empresa americana que vendia aspiradores porta a porta, onde
mais tarde vim a descobrir que até os rececionistas quando não tinham nada para
fazer, tinham de ir vender também porta a porta. Foi o suficiente para desistir
no segundo dia. Apenas acho que não tinha de me sujeitar a uma fase de vida com
algo que não me identificava.
Eu
sei que arrisquei de mais... mas não queria trabalhar fora da minha área
novamente... eu acabei o meu curso em 2010 e nunca tinha feito nada em turismo
a não ser ... ser turista ... chega... arrisquei ..fui exigente na minha
procura, e ainda mais nas entrevistaa que fiz, e sempre sincero.
Sei
que a imagem do que quero, é um pouco diferente da realidade que muitos vivem
aqui no Algarve, mas eu vou manter aquilo em que acredito, e ser quem sou,
lutando pelo que gosto. Não somos todos iguais e mais dia menos dia caímos num
trabalho e numa rotina que é mais ou menos adequada àquilo que queremos.
A
minha neste momento é ser Night Auditor... não é um trabalho de sonho, tive de
reeducar-me e ganhar hábitos de trabalho e rotina, de dormir, de comer, enfim,
toda uma rotina nova para poder aguentar o trabalho.
Não
sou um rececionistas, mas aqui posso ir lentamente aprendendo tudo o que o
rececionista faz, pois faço a mesma coisa que ele, apenas ocasionalmente, logo
tenho tempo para lentamente ir aprendendo tudo e me ir aperfeiçoando. Ao mesmo
tempo tenho funções do departamento de reservas, marketing e contabilidade,
logo dá-me outras perspectivas e experiência também. Consigo ir estudando e
treinando as línguas, que já tava destreinado, como o inglês e o espanhol e
assim vou na minha rotina.
O
salário, do ponto de vista português, não é mau, pois é com as horas noturnas,
durmo de manhã e acordo ao início da tarde. Ou seja, quando as pessoas estão a
sair dos trabalhos eu estou a acordar, e acabamos por ter livre a mesma parte
do dia. Quando elas vão dormir, eu vou trabalhar. Tudo está normal.
Tirando
isto, eu notava que a minha depressão não melhorava, mesmo tendo decidido
inscrever-me num ginásio para ter alguma atividade física e mexer-me mais. Sem
motivação alguma para treinar, como é óbvio, mas fui.
Já
para novembro – dezembro, decidi que era altura de tratar-me, o meu cérebro
estava finalmente a prejudicar-me, estava a tornar-me alguém que eu não
gostava, e isso estava a prejudicar-me em casa, na relação, e nas minhas
relações com os outros, e antes que isso afetasse o trabalho tinha de ser
controlado.
Fui
consultar um psiquiatra e expus aquilo que me inquietava. Nunca quis psicólogo,
eu sei identificar os meus problemas e o que me faz mal. E ali decidimos seguir
por um tratamento.
Não
quero estar nisto para sempre, mas vou lutar por mim e fazer o necessário para
melhorar. Desde então tudo tem melhorado a olhos vivos, não só no trabalho e em
casa, mas na relação, na minha auto-estima e corpo, no stress e na minha saúde.
Identifiquei
melhor o que me prejudicava e estou a lidar com isso. Tenho de encontrar um
ponto melhor de equilíbrio com o meu irmão e tentar ajudá-lo sem me afetar. Mas
quero o melhor para ele. Vamos ver o que acontece.
2016
foi uma luta de cinco anos que venci com muitas cicatrizes. 2017 vai ser para
colocar tudo no lugar e seguir em frente com novos projetos.
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