sábado, 15 de julho de 2017

Objetivos entalados *

Sinto vontade de escrever pois hoje em dia é a única forma de dizer o que sinto e a única forma de conseguir uma ordem de raciocínio.
Hoje em dia, já pouco resta de um "eu" que eu gostava, de um eu que estava "ok" com o seu corpo, que fazia qualquer coisa por amor sem pensar duas vezes, que simplesmente dizia "amo-te" sem pensar nas consequências.
Algures no meu percurso, esse "eu" perdeu-se, ficou frio, sofreu, endureceu de uma forma inquebrável...
Este "eu" pouco sabia de sobrevivência, para ele, bastava viver na cidade que tantas boas memórias lhe trazia, ter um trabalho que pagava o principal, viver numa rotina sem ter de pedir autorização dos pais, sair todas as semanas com amigos que em tudo eram o seu espelho, dançar, beber, beijar e ter a praia para recarregar a bateria e reviver tudo de novo.
Mas esta pessoa nunca quis entrar em situações que o deixassem desconfortável... que saíssem da sua zona de conforto e então os imprevistos começaram a aparecer.
À primeira vista aquilo que para mim era perfeito, começou a reduzir drásticamente, as dificuldades financeiras surgiram, a triste realidade de que nunca iria conseguir passos importantes como ter uma casa, carro, viajar, os meus amigos começaram a dispersar para outros lugares e a seguir os seus objetivos. O meu círculo que já era bem limitado, e porque assim eu o criei, agora estava escasso.
Neste momento eu estava completamente apaixonado por alguém, eu sabia que não era saudável mas não quis saber... deixei-me levar e então tudo acabou... e eu perdi algo em mim que nunca mais recuperei... não estava preparado para este fundo. O chão desabou dos meus pés...
Aquela cidade sonho e onde nada de mau poderia acontecer, agora era um martírio de dias e memórias de momentos e pessoas que não voltaríam nunca mais, e eu não soube habituar-me a isso.
Então fiz o impensável, regressei ao lugar que jurei nunca mais voltar e que tanto mal me tinha feito e à casa da minha família vivendo sob regras e opiniões, comentários e julgamentos... Neste ponto eu podería ter esquecido que alguma vez tinha sido feliz e tentar reconstruir tudo de novo... e fí-lo mas não da forma que eu estava a pensar.
Pouco tempo depois do regresso a casa, toda a minha família tomou a decisão de imigrar... algo que eu nunca quis meter em causa... e sair ainda mais da minha zona de conforto... mas depois de alguma pressão, fechei os olhos e segui para aquela que seria uma gruta sem fundo e sem regresso.
Fazer trabalhos que humilhavam os meus sonhos... não saber falar e ter de aprender como um bébé... não saber defender-me e ter de dizer "sim" a tudo e sujeitar-me por necessidade. Viver cinco anos com pessoas frias, cruéis, racistas, transformou-me em alguém de quem não sou forte o suficiente para me abstrair.
A isto se juntou a saudade e o sonho que a nova realidade financeira me tinha oferecido. Eu podía ter sofrido, eu podía ter perdido, eu podía não ter amor, mas podería dar-me uma estabilidade para viver numa rotina onde nada me perturbasse... tracei a minha meta... viajei, aproveitei a credibilidade financeira que tive para comprar casa e tudo o que ela engloba e meti um prazo para desistir deste bem-estar financeiro e voltar a uma rotina onde já tinha tudo o que "materialmente" precisava e apenas teria de encontrar um trabalho para manter isso por muito tempo.
Acho que no fundo de mim nunca perdi este sonhador que ainda acredita em algo... longe de pensar que podería encontrar algo parecido a "amor" de novo.
Mas este regresso teve um preço muito grande a ser pago, físico e mental, aguentar até ao momento certo, apertando as feridas mal saradas ao máximo, passando de um emprego que me mantinha saudável para o desemprego que me deixava em casa e torturava ainda mais o meu psicológico... e a pessoa que aqui chegou foi alguém que eu já não conhecia...a nenhum nível.
E eu já "o" tinha encontrado...a "ele"... e ele tinha e tem tanto trabalho pela frente e como posso eu pedir tal batalha a alguém... ninguém merece isso.
Ninguém merece esta personalidade fria e inconstante que ainda tem bastante por amulecer... ninguém merece este medo de amar, de dizer "amo-te" em prol de uma vontade enorme de ser amado de novo... não sei se sobreviveria a outra queda.
Esta pessoa que aqui chegou estava a batalhar sintomas depressivos e de ansiedade, lutando contra uma maré enorme de desmotivação em lutar pelo que quer que fosse... e "ele" foi paciente nisso... e hoje não tenho mais crises de ansiedade e pânico, não me sinto mais triste...
Mas a batalha ainda não está vencida... preciso de reencontrar a chama para lutar por mim, preciso de acreditar que é possível, que posso gostar de mim de novo e posso deixar outros gostarem de mim ... posso deixá-lo a ele gostar de mim, tocar-me, sentir-me... 
Preciso de encontrar um equilíbrio emocional e psicológico para ter atividades de novo, para me mexer mais, para sair com amigos e fortalecer as amizades. E eu estou agradecido por esses amigos, e por ali estarem mesmo estando eu perto e ausente. E eles tentam de vez em quando aparecer e fazer algo, e eu simplesmente desligo.
No fundo de mim, estou à espera da luz que me motive para tal... à espera de algum impulso que me mova a lutar de novo ... A minha consciência diz-me que "ele" deveria ser motivação suficiente para eu lutar por mim de novo ...e porque não o é? O sentimento é puro, mas porque é que eu não desperto ...
O trabalho está bom, e eu gosto disso. A minha chefe gosta de mim e deixa-me ter uma rotina estável de horários de trabalho, o salário é "aceitável" deste ponto de vista português ... tenho tudo em casa o que preciso embora tenha de me conter nas compras muitas vezes. A família vai-se orientando como pode, mas é um peso que já não tenho em cima de mim porque simplesmente aqui não posso fazer nada para os ajudar. O que falta? 
... Por vezes sinto ainda aqueles antigos sintomas da saudade de uma liberdade que não volta ... mas acho que seja normal e aprendi viver com ela e aceitá-la ... e aceitar as novas fases que se seguiram. Acho que terei mesmo de continuar a ser paciente e ver o que a vida me reserva.
Apenas não quero que esta fase em que estou passe e eu não aproveite nada ... os 30 deveriam ser vividos em grande e eu já estou praticamente nos 31 e entalado em objetivos.

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