Ontem estava deitado agarrado a ele, corpos juntos, o meu braço em volta dele, ele dormia profundamente, e eu ainda esperava pelo sono.
Naquele momento fechei os olhos e tive um déjà-vu... um que já não tinha há muito tempo. Estava deitado, agarrado à minha almofada, virado para a parede no meu sofá cama, na Suìça, sem rumo, sem saber o que seria de mim futuramente, o que seria dos meus objetivos, ou até, se valeria a pena ter objetivos, pois qualquer reviravolta parecia um futuro longínquo.
Isto foi uma fração de segundos enquanto fechei os olhos. E pensei.
E se tudo isto até hoje não fosse real? E se este regresso para Portugal com o meu irmão, este recomeço em algo que me prendeu dois anos, esta relação amorosa, e este final merecido, se tudo isto não tivesse passado de uma ilusão, de um sonho que eu tivesse tido enquanto estava deitado na Suíça, tapado e virado para a parede na esperança que algo me acontecesse de positivo, que mudasse tudo.
Sei que sou lutador, mas sei também que levo muito tempo para que aconteça algo que mude todo o rumo da história e por isso comigo as coisas não acontecem de um dia para o outro, os objetivos demoram a ser cumpridos, as coisas más tendem a durar demasiado tempo até danificarem, ou até mesmo serem irreparáveis a certo ponto.
Mas abri os olhos. É real. Estou em casa, na minha casa. Não sei como... como consegui tal objetivo, eu... que nem me imaginaria num trabalho que me rendesse dinheiro o suficiente para me deixar folgado, quanto mais comprar uma casa.
Mas abri os olhos ... e estou em casa, e sobrevivi ao regresso ao meu país, a uma rotina que eu sabia que queria, e de como não a queria, uma rotina num trabalho noturno no qual eu pensei que me tinha afundado, e do qual não sairia, que sabia que me tinha salvo da Suíça mas que agora me estava a acabar com o pouco que restava da minha sanidade mental e física. Uma rotina que prejudicava a minha tentativa de ter uma relação amorosa estável.
Mas abri os olhos, e estava na minha cama, na minha casa, agarrado a ele, e a relação está a fortalecer de dia para dia, e ele dorme tranquilo ao meu lado e diz que me ama, e eu amo-o, e esteve ao meu lado enquanto eu passei por tudo.
Acho que vale a pena, acho que posso acreditar que é real e verdadeiro. Afinal, ele conheceu-me quando eu tava na Suíça, quando eu estava perdido, e se ganhou interesse quando eu era um trapo perdido, agora as coisas só podem ser verdadeiras, agora que eu me sinto bem.
E eu abri os olhos e reconfortei-o, senti o seu quente mais uma vez e inspirei fundo, a noite é uma criança e eu já não tenho de estar a trabalhar nelas sentado numa secretária e a pedir à lua todas as noites para me deixar dormir. A suplicar dizendo que já não aguentava mais trabalhar de noite e que me desse forças para conseguir algo novo e motivante que me aguentasse a rotina. E a lua concedeu-me o pedido, levou dois anos, mas fez-me esse favor. E agora eu posso acordar todos os dias sabendo quais são os pilares com que posso contar.
Sei para onde caminhar, qual a minha luta. Continuo a ter objetivos, claro, mas sei que não estou perdido. E quando me sentir perdido, continuo a tê-lo a ele para agarrar e inspirar fundo para ganhar novas forças.
E se de um lado o quente dele não for suficiente, de certeza que algures perdida na cama imensa estará outro calorzinho a ronronar que me faz lembrar que já não vivemos na Suíça perdidos entre quatro paredes sem saber o que nos espera, mas que estamos quentinhos na nossa casinha e podemos adormecer de novo.
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