sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quebra mental

Não sinto vontade de escrever, sinto sim uma necessidade de tentar encontrar uma ordem de raciocínio em relação às razões pelas quais não me sinto bem e só consigo fazer isso tentando escrever algo.
A verdade é que não tenho vindo muito aqui, não sei que dizer. Talvez porque o meu estado de espírito esteja um caos.
Nunca consigo estar bem a todos os níveis, há sempre problemas a aparecerem de todos os lados.
Há uns tempos que a pandemia do Covid-19 faz parte da nossa vida, isso tem-nos mantido as mentes ocupadas, as precauções, as preocupações, os cuidados connosco, com os outros e com a nossa família, os cuidados a ter no trabalho, isto para aqueles que se mantiveram com trabalho.
Eu tenho a sorte ou o azar de trabalhar num Hospital, e como tal, trabalhando num Serviço de Urgência o meu trabalho foi redobrado, pelo menos inicialmente, a rotina diária de desinfeção já é um hábito para mim, a não socialização com outros, que já era algo frequente em mim, agora é regra, e mantenho-me longe dos que gosto para não prejudicar ninguém, embora tenha consciência dos cuidados que tenho a cada passo.
Estou sozinho em casa com a minha gata e alguns cuidados de higiene redobrados comigo e com a casa, e os primeiros dias tive de me afastar do meu companheiro, para proteção de ambos e dos nossos. Passámos depois a pequenos passeios com protecção e afastamento necessários e mais recentemente ao toque mantendo redobrados os cuidados com outros e com o exterior, para podermos estar um com o outro mais intimamente.
Ele ficou em layoff, não lidou com o vírus a nível profissional, em vez disso, lida com o stress de estar em casa diariamente e com tudo o que o isolamento traz ao corpo e à mente; lida com as saídas sociais comigo ou para compras e mais recentemente com um problema de saúde da sua gatinha. Isto está a torná-lo um pouco stressado, isto e o não saber quando vai regressar ao trabalho e se vai regressar com boas condições que o protejam e à sua saúde.
Eu, lido com este stress nas pessoas diariamente no trabalho, com o stress de colegas que não se sentem protegidos, ou com a preocupação diária de algo lhes acontecer e prejudicarem consequentemente as suas famílias; lido com o stress de pacientes que são obrigados a deslocarem-se ao Hospital e um pouco com a preocupação dos meus familiares e alguns amigos que se preocupam com a minha rotina hospitalar e exposição a possíveis casos de contaminação. A verdade é que no fundo, apenas dou graças de manter um trabalho, num ambiente em que já quase metade do Hospital foi despedido para retenção de custos, e eu ainda me mantenho lá e consigo pagar as minhas contas, pois só eu sei o quanto é importante não baixar o meu salário para um layoff ou desemprego pois mantenho os meus créditos de casa e carro a pagar, assim como todas as outras despesas e alimentação.
Portanto esse é o stress principal, acima de todo o restante stress. Acima do stress das proteções contra o vírus, acima do stress que ele está a passar recentemente e eu quero ajudar, mas muitas vezes não tenho força psicológica.
Falando de psicológico.
Não falei disto com ninguém, mas estou num estado que nunca estive, sinto-me fraco a nível psicológico, não reajo, não discuto, não respondo, parvejo e brinco para dispersar conversas sérias ou problemas, fico em branco olhando o vazio, apático, a dormir horas sem fim ou sem dormir de todo, ansiedade e mais ansiedade que vem em momentos que não consigo controlar, crises de mau feitio, irritabilidade e o pior de tudo um comer descontrolado e um engordar recente que me está a quebrar, e não só, além de me ter deixado a auto estima de rastos eu sinto que está a afetar a forma como ele olha para mim.
As chamadas de atenção e as conversas de comida mudaram, insiste que faça caminhadas com ele, que coma saudável, mas a forma como o diz, como me toca, como me olha eu sinto que há algo ali que antes não havia.
Não sei se é do stress recente que ele está a passar, não sei se é de mim ou do meu corpo, só sei que sinto-o a afastar-se de mim... e no meio de tudo isto que passo recentemente, ele é o meu pilar de sanidade, onde me distraio, onde busco carinho e afeto, amor, quando preciso e tento dar-lhe ao máximo mesmo que ele nunca me peça nada, mesmo que ele não seja tão carente como eu sou.
Tenho muitos dias em que depois de 8 horas a trabalhar em ambiente de hiper proteção contra o virus fico com o cérebro esgotado, é verdade que o corpo descompensa quando apenas o cérebro está cansado e o corpo não, mas fico ainda mais com o psicológico de rastos, sem vontade para nada, e ele ainda puxa por mim para caminhadas ou sair de casa contra aquilo que estou a sentir, e eu vou por ele, muitas vezes vou, não pelos benefícios desses passeios a todos os níveis e eu sei que os há, mas por ele apenas é que eu me esforço. Mas da mesma forma que tenho todas as vezes que me forço a sair, também tenho muitas em que cancelo os planos e fico em casa fechado, no meu canto, protegido.
Essas são vezes em que tenho o cérebro tão cheio que só me apetece chorar, pois não tenho com quem desabafar, é verdade, não tenho.
Ele dispersa sempre que tento desabafar, nunca consigo exprimir-me com ele sobre a confusão que vai na minha mente, e ele também nunca me pergunta as razões. Para ele é sempre preguiça, ou eu não gostar de caminhar ou sair com calor, ou a ansiedade que ele já começa a levar mais a sério e a entender melhor. Mas a verdade é essa, tenho o cérebro a explodir de sensações e confusões, cansaço que não me deixa exprimir e faz-me sentir triste o tempo todo, deprimido, com vontade de chorar, e não é depressão isso eu sei, pois já a tive, mas é um vazio que não sei como tirar de dentro de mim.
Não sei como agir de forma diferente para que ele me veja novamente com admiração. Quero perder peso, há bastante tempo, agora mais que nunca, não só por ele, mas principalemente por mim, acredito que muito do meu bem estar fisico e psicologico irá melhorar; mas não consigo encontrar essa meta em mim, a força psicológica para tal, pois estou tao em baixo que não tenho qualquer motivação para uma dieta.
Não posso desabafar com a minha família, pois estão tão perdidos nos seus próprios problemas que mal tento desabafar, sou logo abafado pelos problemas deles, que se acham sempre superiores aos dos outros, e não digo que não sejam, para nós o nosso problema é sempre mais grave e conseguimos sempre aconselhar nos problemas dos outros, mas desta vez eu não consigo. E como não consigo, afasto-me, afasto-me deles pois tentar ajudá-los ou ouvi-los esgota-me ainda mais e quebra a pouca estabilidade que tenho.
E assim fico neste limbo sem fim... não sei para onde me virar, não sei se vou continuar com trabalho ou se quando o meu contrato estiver prestes a terminar se vou ser dispensado... não sei se estou a prejudicar a minha relação, se ele ainda me quer como sempre quis.. não sei quando vou ter a minha família estável... não sei quando vou ter o meu corpo e confiança de volta.. e acima de tudo, quando vou recuperar a minha sanidade mental e garra de volta.

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