Como é que devemos começar um desabafo que está a fermentar dentro de nós há imenso tempo?
Como é que tentamos falar algo sobre o que nos está a perturbar e a matar lentamente se nós próprios não sabemos onde se encontra a raiz desse problema?
Gostava de desvendar através da escrita aquilo que me tem atormentado por tanto tempo.
Gostava de conseguir uma ordem de raciocínio através da exposição das coisas que me atormentam.
Mas como conseguimos expor o que nos atormenta quando aquilo que nos atormenta está em todos os campos da nossa vida.
Nós somos máquinas que nos auto-motivamos e quando isso não acontece porque, por alguma razão, a nossa mente, o nosso interior está quebrado, temos tendência a colocar todo o nosso foco nas áreas da vida que até estejam a passar por boas marés.
Estamos bem a nível pessoal, interior; se não estamos, e temos alguém para nos relembrar o quanto valemos, focamo-nos na energia dessa companhia para seguir em frente. Quando essa boa energia não chega, tendemos a focar-nos na nossa estabilidade financeira, que nos faz lembrar que nem tudo é mau… além disso, permite-nos ajudar outros e por consequência sentirmo-nos bem com a vida.
Mas a estabilidade financeira nem sempre chega a todos, e nem todos conseguem saborear a paz que isso consegue trazer. Quando não o sabemos, focamos muita da nossa energia a trabalhar, o que nunca nos vai valorizar pelo nosso esforço e valor. Gastamos um infindável nível de energia traduzido em anos de vida sem nunca o podermos saborear.
O nosso nível de insatisfação profissional é muitas vezes apaziguado por aqueles que nos acompanham na vida, amigos, família, alguém especial, e tendemos a entregar este “eu” insatisfeito e quebrado ao desabafo com “outros”. Ao sobrecarregar “outros” com as nossas energias, boas ou más, e sendo nós, em prol disso, a esponja das energias dos outros. Um absorver de algo que a nossa pequena caixinha já não tem mais capacidade de absorção. E o que acontece nestas situações? Afastamo-nos de tudo e de todos.
Os acontecimentos não têm de acontecer sempre nesta ordem para todos, a vida aplica uma lei diferente para casa um para que não hajam soluções pré-definidas e cada um tenha de desvendar o mistério por detrás da sua infelicidade.
Mas as pessoas chegam a becos perigosos na vida. A níveis de angústia que só um peito tão pequeno como o nosso não consegue conter sozinho e por vezes o mesmo quer explodir com todos os sentimentos e emoções que tem dentro dele.
Para os poucos que chegam a este ponto e têm a sorte de ter um pouco o coração frio, moldado pelas experiências da vida, têm a sorte de ganhar um prazo extra para a insanidade, pois a frieza não nos deixa sentir nos primeiros tempos… arrastamo-nos pelas experiências… apáticos… insensíveis… bruscos, algo duros… uma máscara, vista por alguns como uma personalidade intocável, máscara essa que muitos não sabem ser o objeto mais frágil que estamos a segurar.
E o medo que temos de quebrar que nos acompanha diariamente, de deitarmos tudo a perder por um fraquejar humano que nos possa acontecer. Uma ansiedade que se cria dentro de nós, originada pelo medo de tudo perder, de tudo correr mal, da solidão, de estarmos sozinhos porque nos isolamos.
Este sou eu hoje!
Há uns tempos escrevi que seria preciso juntar uma pessoa de cada fase da minha vida para escrever a minha história completa, pois cada um seria um capítulo, e não teria ninguém que tivesse sido constante na minha vida que tivesse estado sempre presente, alguém que entendesse hoje as razões por detrás de muitas das minhas ações, tristezas e ansiedades.
Se eu encontrar a solução para os meus problemas, será que vou aproveitá-la?
Parte de mim não sabe ser feliz enquanto a minha família se apoiar em mim não estando feliz. Parte de mim não sabe ser feliz enquanto eu e ele não formos uma relação estável e forte, no espaço definido para sermos felizes.
Quando regressei da Suíça, vinha com a perfeita noção que não ia ter uma vida de abastança, sabia que o salário iria ser reduzido, mas só teria se ser suficiente para aguentar a rotina, pois os meus maiores planos estavam alcançados. Tinha a minha casa, tinha o meu refúgio, ninguém dependia de mim, já não precisava de apoio em estudos, era eu e a minha luta.
Se eu voltasse atrás, talvez mudasse algumas coisas, talvez tivesse logo comprado e pago um carro; talvez tivesse sido mais realista quanto à realidade do meu irmão, talvez tivesse sido mais rígido com o meu pai, mãe e irmã mais velha.
Havia uma fenda no meu ser quando vim da Suíça e não a identifiquei a tempo. Esta fenda transformou-se numa depressão a que eu mais tarde identifiquei de esgotamento de todo o processo final na Suíça que acabou por durar 6 meses. Vir para cá era uma decisão firme e consciente mas havia muitas outras coisas que não foram ponderadas a nível psicológico.
Essa fenda de esgotamento curou-se da pior forma, trabalhando em horário noturno, inicialmente porque foi o primeiro trabalho que encontrei, e depois por ser o único salário que encontrei que me dava para todas as despesas sozinho. Tive de me aguentar três anos; esgotamento e depressão transformaram-se em crises de ansiedade, que até então tinha estado camuflada.
Com o passar do tempo fui perdendo aquele físico que trazia e pelo qual ele também se interessou, ele não mo diz, mas eu vejo nos olhos dele que o olhar não é igual, sinto que o toque não é igual. E todos sabemos o que a ansiedade faz ao físico.
Com muito esforço, sorte e persistência, consegui trocar de trabalho, e não, não melhorei a nível financeiro. Continuo com a corda ao pescoço, continuo com a ansiedade, a engordar e a perder a pessoa que antes fui. Pelo menos sei que me tornei num esforço cada vez maior para ele, numa pessoa nem sempre fácil de lidar.
Com tudo a acontecer, foquei-me num trabalho e redobrei os meus esforços como forma de me distrair. Acontece que eu até adoro o meu trabalho, no que diz respeito a trabalho administrativo. É um desafio diário e nunca se torna aborrecido. Nunca pensei encontrar algo com este nível de satisfação. Mas tudo o que é em demasia vem com dissabor.
Hoje, depois de abrir os olhos para a realidade no meu local de trabalho, sei que nunca chegarei a um posto tranquilo e meu, como esta rotina tanto me fez ambicionar, ou chegar a um nível salarial satisfatório que eu também ambiciono, e sobretudo, num curto espaço de tempo, a tempo de salvar a minha rotina diária da forca.
E este descontentamento salarial tem tido repercurssões negativas no meu bem-estar, na minha relação e na minha ligação com família e amigos
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