sábado, 16 de janeiro de 2010

Mãe


No mais fundo de ti,
Eu sei que te traí mãe.
*
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
*
Tudo porque tu ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora muito
E noites rumorosas de águas matinais.
*
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe
E o nosso amor é infeliz.
*
Tudo porque perdi as as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
*
Se soubesses como ainda amo as rosas brancas
Talvez não ligasses aos outros pesadelos que te causei.
*
Mas tu esqueces-te muita coisa
Esqueces-te que as minhas pernas cresceram
Que todo o meu corpo cresceu
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe.
*
Olhá - Queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos.
*
Ainda aperto contra o coração
As rosas tão brancas
Como as que tens na moldura.
*
Ainda ouço a tua voz:
Era uma vez um menino
No meio de um laranjal...
*
Mas - tu sabes - a noite é enorme
E todo o meu corpo cresceu
Eu saí da moldura
Dei à sociedade os meus olhos a beber.
*
Não me esqueci de nada, mãe
Guardi a tua voz dentro de mim
E deito-te as rosas.
*
Boa noite. Eu vou com as aves...

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