O que é ser “Magister”?
Cada um que tem o seu título de tunante deverá ter a sua própria opinião. Cada um sabe observar tudo em seu redor e identificar aquilo que está bem ou mal… e não passa disso. Eu também fui assim na minha Tuna, durante dois anos fui caloiro, sendo que no segundo já envergava o traje académico, mas por falta de caloiros era sobre nós que tudo recaía. Durante esse tempo, envolto nas mais absurdas hierarquias mantinha-me calado, revoltado, observador, por vezes “aziado” como muitos lhe chamavam.
Embora à vista de todos, parecer que cada um tinha a liberdade para fazer o que queria, por dentro não era bem assim, e essas liberdades até estavam bastante condicionadas.
Durante três anos eu geri o meu quotidiano em prol da Tuna, segui-a para os mais cansativos lugares que se podem tolerar enquanto caloiro, desde as praxes e humilhações em Beja que é a minha terra, a ficar sozinho de joelhos a pedir dinheiro com um cão ao lado na Praça do Giraldo em Évora, a ter de ficar debaixo de chuva enquanto cada um tinha a sua capa em Coimbra, entre tantos outros momentos.
Neste tempo eu “apenas gostava de estar em Tuna”, nunca cheguei a entender o que era estar ali de corpo e alma, com dedicação, nunca entendi a 100% o sentido da palavra “tunante”. Muitas destas aventuras eram como doses injectadas à força na minha personalidade.
Se posso considerar isto um processo de aprendizagem? Claro! Enquanto caminhava nestas lides tunantes, um mundo lá fora evoluía, e todo o universitário, incluíndo eu, passava por um processo de crescimento que é obrigatório passar-se aquí; a fase de ser-se amigo de todos; as desilusões; os desgostos, até chegar ao ponto de restringirmos o nosso grupo de amigos e haver pessoas que não gostam de nós. E onde é que a Tuna estava? Sempre no mesmo sítio. Era como um remédio pois lá com toda a caloirice, o medo, a vontade, não pensávamos em nada do que se passava no mundo exterior; hoje posso até chamar-lhe de refúgio.
Estar na Tuna inicialmente implicava fazer parte de um grupo que era bem visto por uns e sofrer de maus olhados por outros; implicava defender este grupo, moral e tradição académica sempre que alguém decidia fazer os seus comentários jocosos sobre algo ou alguém. Foi uma lição de vida, pois hoje defendemos com garra qualquer amigo que precise e ao abrirmos os olhos vemos que muitos desses amigos são os nossos colegas tunantes.
Muita gente não entende este espírito e união, muitos dos tunantes, ou a maioria, incluindo eu, teve de se balançar entre Tuna e amigos que dela não gostavam.
Mesmo no início de tudo, era visível que havia pessoas totalmente opostas, grupos dentro de um mesmo grupo e isso prejudicava; a obediência era desmedida e levava a poucas entradas e à falta de motivação, e os poucos que entravam, eram aqueles que visivelmente se concluía que nunca saberiam motivar enquanto praxantes; pois ou praxavam em exagero ou nem sequer praxavam, e eu incluíam-me neles também.
Eu cresci, em todos os sentidos, mas está claro que sem a chama que nos faz lutar por algo, a nossa luta torna-se sem sentido; por mais hierarquias ou cargos que se alcance de nada adiantam se não houver motivação e a lição do significado de tunante estiver aprendida. Apesar da minha subida de posto, cargos que alcancei em 3 anos e que por isso tudo já agradeci um a um a quem tinha de agradecer; de nada me valeu para chegar ao significado de Tunante; acredito que contribuiu pois ambicioso e autoritário como sou foi preciso subir bem alto para a queda me acordar.
No Verão passado eu fiz um discurso de despedida e agradecimento por algo que eu não tinha aprendido na totalidade, insatisfeito, cansado, desmotivado e farto eu virei costas juntamente com 98% dos tunantes quando a Tuna estava mal. Não chorei, não tive remorsos, infelizmente o meu percurso na vida tornou-me alguém frio.
Como se costuma dizer, é preciso perdermos algo para lhe darmos valor e durante o tempo que se seguiu eu reflecti e era incontornável as memórias, os momentos e as vivências em Tuna, uma escola, uma família, e a saudade mesmo sabendo que poderia regressar em Setembro, aumentava, por ver que todos seguiam o seu caminho e esta porta se fechava.
O ano lectivo começou e nada de Tuna até que as reuniões para eleições começavam, e eu sem aparecer, decidi então despedir-me à altura na Actuação de Recepção ao Caloiro, onde fiz outro discurso na esperança que para um auditório cheio, alguma ideia ficasse retida, e nada… seguiu-se outra despedida.
Uma tarde concordámos todos reunir-nos para falar sobre o destino desta Tuna. E foi naquela reunião… não por me terem nomeado Magister, mas por ver um a um dos Tunantes a decidir ficar e lutar para que aquele grupo não acabasse; um a um ao decidir ficar recarregou a minha bateria e naquele instante eu entendi o que era ser Tunante.
Naquele momento vi à minha frente a hipótese de corrigir tudo aquilo que durante 3 anos eu vi que poderia melhorar. Mas uma coisa é certa, a melhoria deveu-se a cada um dos tunos de forma diferente, e principalmente, a muita gente ter saído da Tuna.
Errar é humano, é normal que o tenha feito em várias decisões, e acredito que voltarei a errar “N” vezes; volto a dizer que não me arrependo e a meu ver, havia muito lixo e anexos pendurados na Tuna por “limpar” tanto de hábitos e pessoas que não gostavam da Tuna como de pessoas que gostavam.
E é com orgulho que digo que consegui que entrassem 10 pessoas para a Tuna e o melhor, “mantê-las na Tuna”; pessoas que espero que aprendam o que eu aprendi e contribuam o suficiente para que isto não acabe tão cedo.
Mas foi difícil muitas vezes e não há elogios sem críticas, após o Enportunas todos se baldaram e foi difícil manter o nível anteriormente alcançado, difícil manter actuações que me recusava a cancelar, pois vocês falhavam em algo que eu já não podia interferir, motivarem-se a vocês próprios.
Por tudo o bom e o mau, que vai sempre haver, e é da praxe, eu digo que tenho bastante orgulho na minha Tuna e naquilo que a vi crescer; é com prazer que vos digo que tenciono continuar na Tuna para mais um ano, mas a vossa falha final leva-me a que vos peça para não me escolherem para Magister mais um ano, ainda que continue para o que for necessário.
Não fui um Magister que ficou conhecido pela sua ditadura, como o Satã, ainda não sou reconhecido pelos anos que já contribuí para a Tuna como a Nilde, Diogo, Koida e Tati; nunca irei ser conhecido pelos dotes de ensaiador e cordas como o Xixa, Hélder e tantos outros; nem preciso que se lembre de mim pelas melhorias que fiz na percurssão. Quero que se lembrem de mim como aquele que vos motivou para mais um ano de Tuna e os manteve na Tuna, organizou o máximo que pôde para melhorar o vosso nível musical técnico e vocal com os ensaiadores, e a melhoria está audível; organizou para que o nome da Tuna voltasse à baila no bom sentido, e também é com orgulho que refiro que não há registo em qualquer dossier da Tuna de um Plano de Actividades tão cheio de actuações como o deste ano lectivo. Obrigado.
Gostei. Bastante sincero.
ResponderEliminarTens tido, de facto, uma boa evolução na tuna, e sem dúvida mereces o cargo que tens...passaste por todas as praxes...sujeitaste-te a todas as obrigações sem virar as costas e desistir...tiveste momentos de desalento como é normal claro mas sempre mantiveste a força em ti...e com a atitude que tens em tudo na vida, dedicaste-te ao máximo e sempre deste imenso de ti á tuna...e hoje ocupas o lugar superior da hierarquia da tuna...e é um lugar que te assenta perfeitamente...
Quanto ao reconhecimento que falas…tu não tens que ser reconhecido e lembrado enquanto magister, comparado com os anteriores…sei que sabes disso.
Cada um teve a sua importância durante o seu tempo no cargo…e tu tens a tua igualmente…como tu sabes.
Conseguiste mover toda uma tripulação e fazer um navio quase encalhado continuar a navegar…
Já ouvi alguns elementos da Tuna afirmar (e tu sabes que é assim) que és a razão pela qual não saíram da tuna… e eu acho que isso é motivo mais do que suficiente para que tenhas o sentimento de missão cumprida.
Beijinhos
Cara SG: Obrigado .. foi de facto uma optima experiência a nível pessoal pertencer a este magnífico grupo de amigos, que são isso mesmo, amigos!. Beijinhos
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