terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O fermentar de todas as coisas

Na impossibilidade de me pronunciar sobre algo

Bebo a sangria gelada feita por mim

Ao som das guitarras nostálgicas

Que adensam este velho sabor que experimento

Mas no fundo o que sinto é angústia

Agonia por a poesia bater sempre no lado errado

E eu perder-me dentro das palavras

Dissolvo na sangria a solidão e a agonia

E do interior da noite fria

Chega uma saudade granítica da terra

Da terra por explorar, da terra por mim explorada

Antes do céu cinzento e do véu rasgado

Das portas abertas por onde só entrou frio

E antes destas mãos de menino, ainda,

Gretadas pelas vezes que sofreu e riu,

Saudades da terra antes das nódoas negras

Que carrego cravadas nos ossos da alma

Saudades da terra entalada de horizontes rígidos

Da terra onde os meus pés pequenos

Corriam para casa por haver casa

Depois da noite

E antes da noite

Dentro da noite

Há um reino de pássaros negros

A desenharem estrelas com os bicos já gastos

Esquinas sem esperança e solidões fundas

Perdidas no desencontro eterno que é o mundo

Sim, é isto que sinto e o que sou

Angústia, pois ainda consigo sentir o cheiro da terra

Depois da chuva

Enquanto assisto pálido ao passar inerte

Duma vida que não sei ter

Mergulho-me por isso no vazio das coisas

Mergulho-me nas ausências

Na espera alucinada de conforto

Entrego-me à loucura branca dos pensamentos

Que fazem ecos nos abismos

E no fundo sei que me perco

Apenas na vaga esperança

Que entre os cenários escuros que pinto

E os bons que visualizo futuramente

Alguém me possa encontrar

Para me dizer quem sou!

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