Na impossibilidade de me pronunciar sobre algo
Bebo a sangria gelada feita por mim
Ao som das guitarras nostálgicas
Que adensam este velho sabor que experimento
Mas no fundo o que sinto é angústia
Agonia por a poesia bater sempre no lado errado
E eu perder-me dentro das palavras
Dissolvo na sangria a solidão e a agonia
E do interior da noite fria
Chega uma saudade granítica da terra
Da terra por explorar, da terra por mim explorada
Antes do céu cinzento e do véu rasgado
Das portas abertas por onde só entrou frio
E antes destas mãos de menino, ainda,
Gretadas pelas vezes que sofreu e riu,
Saudades da terra antes das nódoas negras
Que carrego cravadas nos ossos da alma
Saudades da terra entalada de horizontes rígidos
Da terra onde os meus pés pequenos
Corriam para casa por haver casa
Depois da noite
E antes da noite
Dentro da noite
Há um reino de pássaros negros
A desenharem estrelas com os bicos já gastos
Esquinas sem esperança e solidões fundas
Perdidas no desencontro eterno que é o mundo
Sim, é isto que sinto e o que sou
Angústia, pois ainda consigo sentir o cheiro da terra
Depois da chuva
Enquanto assisto pálido ao passar inerte
Duma vida que não sei ter
Mergulho-me por isso no vazio das coisas
Mergulho-me nas ausências
Na espera alucinada de conforto
Entrego-me à loucura branca dos pensamentos
Que fazem ecos nos abismos
E no fundo sei que me perco
Apenas na vaga esperança
Que entre os cenários escuros que pinto
E os bons que visualizo futuramente
Alguém me possa encontrar
Para me dizer quem sou!
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