domingo, 27 de janeiro de 2013

A vida testa-nos

Por vezes a vida testa-nos ao máximo, por vezes a angústia toma conta de nós, o medo apodera-se de todo o nosso corpo... as dúvidas existenciais aparecem... já há muito tempo que eu não fraquejava assim, ou que o medo de algo me derrubava tão facilmente e ao mesmo tempo eu fosse arrebatado pelas memórias do passado.
Na verdade, estou a passar por algo que eu sabía que podería vir a passar, mas tinha esperança de que não acontecesse... o meu irmão... a coisa mais preciosa que tenho, esta numa fase má. Eu tinha uma ideia que ele ia passar por isto, igual ao que eu passei, bullying e tudo mais, tentava não pensar, é um campo onde ninguém consegue interferir a não ser dar força e ao dar-lhe amor e alegria, não lhe deixando faltar nada. Eu, e mais recentemente os familiares mais chegados aqui com ele, pensavamos que era metade do caminho andado mas não. Tendo outros mundos para se refugiar além da sua mente, ele não estuda e a situação agravou-se ainda mais recentemente e ainda que não sendo nada de grave eu desabei.
Estava eu muito bem em minha casa, sendo que neste momento só estou cá eu, o pai dele e a nossa tia, pois os restantes estão de férias em Portugal, e hoje em particular, a minha tia estava a trabalhar, o pai dele ligou-me que não encontrava em lado nenhum, ligava e ouvía vozes de homens, e temeu-se o pior; na terceira tentativa de chamada, uma das vozes masulinas respondeu ao telefone do meu irmão. Era um dos seguranças de uma das lojas FNAC aqui da cidade, a dizer que o meu irmão se encontrava com ele pois tinha sido apanhado a roubar na loja e tinha sido retido até os pais chegarem pois era menor de idade.
Um misto de pensamentos invadiu a minha mente, primeiro o alívio por ele "estar bem" e não ter sido raptado e depois veio-me o espanto por ele ter feito algo assim, eu julgava-o incapaz de algo assim, não só pela falta de coragem, mas também porque não lhe falta nada, nem nunca lhe é recusado nada que ele peça. E por fim só me vinha à mente o medo que ele devia tar a sentir neste momento ali retido, ele que é tão frágil e sensível e medroso; e só me apeteceu correr para ele para o tirar de lá.
Tanto eu como o pai estavamos bastante envergonhados com a situação, mas aparte isso estavamos, estamos é preocupados com ele, não pelo acto do roubo, não pelas notas más, mas por tudo o que está dentro daquela mente e ele não nos conta e que pode estar a fazê-lo sofrer.
Vi naquele pai a preocupação com essa situação e o estar de mãos atadas a tentar entender, a tentar compreender onde é que falhou, a pensar em mil e uma coisas que ele possa não querer contar, e no fim como que a aceitá-las todas só para o ver bem, isso foi bom de se ver.
Mais que nunca vejo que ele tem agora toda a família pronta para o apoiar em qualquer que seja o problema que ele tiver, e dispostos a que ele frequente um psicoterapeuta para o tornar mais aberto para connosco e mais forte para com o que o futuro lhe reserva.
Fui com o pai dele buscá-lo a pedido do pai, e desabafo do mesmo para o acompanhar nisto; e cheguei lá, vi um menino amedrontado, revoltado, sem reacção, apático, tremia as mãos e esfregava o olho sem saber como nos encarar, como se desculpar. Na verdade, nós nem nos passava pela cabeça repreendê-lo, só queríamos entender, só queriamos resgatá-lo dali. Começar a falar naquele momento era escusado, e tivemos de desculpar-nos com o segurança primeiro e depois pagar a multa e sair. No caminho para cima ninguém disse uma palavra, eu tinha as lágrimas nos olhos, tal como o seu pai, e ele nem imagino como se sentia... só queria abraçá-lo e deixá-lo chorar o quanto quisesse encostado a mim.
Chegando a casa, quis entender, mas ele pouco falou. Eu e o seu pai dissemos-lhe tudo e mais alguma coisa para o reconfortar e deixá-lo mais relaxado... ele chorou, soluçou, sempre deitado agarrado ao gato que se aquecia nesta situação e dormia. Eu passei-lhe a mão para ele saber que eu o apoio em tudo e que o que tinha feito não era correcto, ele prometeu nunca mais fazer, pelo menos essas palavras eu arranquei-lhe... mas mais não consegui... e sinto-me perdido... sinto-me de mãos atadas para o ajudar ainda que eu saiba tudo o que ali vai dentro e não sei como avançar... e isso agonia-me e faz-me chorar. Eu sei que por mais que ele nos tenha a todos aqui perto dele a apoiá-lo, na escola é um mundo totalmente diferente e não está ao nosso alcance...
Neste momento ele está revoltado com a Suíça, que não gosta disto... no fundo ele generaliza e em todo o lado vai ser o mesmo... ele escolheu o refúgio da mãe quando foi para Madrid, e depois vieram para a Suíça e foi o refúgio do pai, juntamo-nos aqui; mas eu acho que está tudo ligado, eu tenho de continuar com os meus planos de sair daqui, fortalecer agora esta relação e ir, ir construir algo em outro lugar e dar-lhe esse refúgio que ele não é obrigado a ir, mas que saberá que pode sempre seguir caso queira, seja estudos, trabalhos, o que for, só para uma nova aventura. Eu quero tanto o melhor para ele, tenho de seguir o que acredito ser o certo, mais nada importa, só ele e eu.

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