Olá. Estou a escrever este texto a conselho de uma amiga que depois de me ouvir desabafar sobre o ir-me embora da Suíça e de saber o quanto existe em burocracia me disse que eu deveria escrever sobre isso para bem informar o pessoal. Então este desabafo dividir-se-á em três partes.
Para começar, e para aqueles que gostariam de sair em direcção à Suíça, país para onde decidi emigrar em 2011, tenho de começar por dizer que o primeiro passo a tomar é o mental. Estejam muito bem decididos a arriscar e principalmente vão com uma mente aberta e disponíveis a adaptar-se às mais caricatas situações e sobretudo a diminuir as expectativas que possam ter imaginado.
Não vos posso dar os meus motivos, pois eu decidi ir visitar a minha família e dadas as boas condições que o país oferecia em contraste às que eu tinha em Portugal na altura, nada apetecíveis, decidi arriscar nesse desafio.
Em primeiro lugar não podem numa esquecer que se vierem para a Suíça, a língua com a qual lidarão vai depender muito da zona da Suíça para onde forem. A Suíça divide-se em quatro línguas: francês (língua com a qual eu lido), alemão, italiano e uma minoria de romanche. Tenho a delinear, que por mais que falem qualquer uma destas línguas, e tal como ir para qualquer outro país, os conhecimentos que vocês têm de uma língua nunca serão suficientes, isso pode quebrar em muito a vossa auto-estima e confiança, por isso venham abertos para serem corrigidos e aprenderem com isso. Tudo se aprende, e com várias técnicas as coisas vêm rápido. Eu tinha imensas bases de francês, com muito esforço posso dizer que com um ano já tinha um nível razoavel de compreensão, com dois anos já tinha boa reflexão de resposta e com três anos já conseguia ter uma conversa ponderada. O ser espontâneo e impulsivo a conversar virão no quarto ano e seguintes.
A Suíça assinou o acordo de livre passagem com a União Europeia, apesar de não fazer parte dela, o que significa que qualquer um que venha pertencente à UE tem o direito de aqui permanecer num máximo de 3 meses como turista. Para quem vem para ficar, o principal é encontrar com quem ficar. Não se espantem se muitos amigos ou familiares vos recusarem abrigo e derem desculpas, aqui o alojamento ou aluguer de casas divide-se em duas categorias, as casas subvisionadas e as não subvisionadas. As primeiras são aquelas às quais nos candidatamos de acordo com os nossos salários mais baixos e onde temos ajuda da câmara (ou Comuna aqui), quer dizer que os preços são mais razoáveis, já para as segundas os preços variam muito e há menos controle. A maior regra é que para aquelas mais baratas, o preço delas é nos dado consoante os salários de quem la vive, se os residentes quiserem abrigar alguém, pessoas que para cá vêm trabalhar por exemplo e essa pessoa começar a ter um salário, as coisas podem complicar-se, e as rendas aumentarem ou levarem até mesmo à expulsão dos residentes. Os suíços são hiper exigentes em fazer cumprir regras.
Há ainda a hipótese de fazer isto e só meses mais tarde alguém controlar e pedir-vos para sair da casa, foi o que aconteceu comigo que fui para casa da minha mãe que era destas mais baratas, e quando descobriram que eu lá estava, eu já tinha tempo de trabalho suficiente para alugar a minha própria casa. Já a minha alugada não é destas controladas e eu posso meter quem eu quiser lá dentro sem alterarem o preço.
Outra hipótese é desde o início procurar logo um trabalho no qual o alojamento seja incluído, quartos, etc. Existem alguns.
Normalmente para qualquer contrato, nomeadamente de casa, todas as entidades pedem as "Fichas de salário" de três meses, ainda que ache que a lei tenha mudado recentemente.
Passemos ao trabalho. Para poderem ficar na Suíça precisam de ter um "Permis de séjour" ou Autorização de residência, para poderem preencher este formulário de pedido, precisam de ter um contrato de trabalho em mãos, e para terem um contrato de trabalho precisam de ter um seguro de saúde. Como para terem este seguro de saúde precisam de ter um contrato de trabalho, isto entra em choque, portanto o que precisam primeiro é de fazer um contrato e dizerem que vão em seguida buscar a inscrição no seguro e a maioria concorda nisso. Com o contrato em mãos podem dirigir-se à Câmara (comuna) para o pedido do Permis, que consoante o contrato que mostrarem pode variar, do B, duração de 5 anos; L duração de meses ou 1 ano ou o de fronteiriço se decidirem trabalhar aqui e viver do outro lado de uma fronteira.. mais tarde terão o C que é o de dupla nacionalidade, onde conseguirão ter as regalias equivalentes aos suissos.
Quando escolherem o seguro de saúde (ou Assurance) onde se inscreverem tenham muita atenção no que fazem, muitos agentes aproveitam-se da inexperiência que têm com seguros de saúde e até mesmo da vossa pouca fluência em compreender para vos dar mensalidades absurdas sem nenhumas regalias. Aqui podem também ponderar consoante à resistência da vossa saúde. Se são alguém que fica constantemente doente ou não.
Quando fazem o contrato de trabalho, essa entidade de trabalho fará obrigatoriamente a vossa inscrição no 2ème Pilier, e quando fizerem a inscrição no Seguro de Saúde eles farão automaticamente a vossa inscrição na AVS ou 1er Pilier, isto tudo quer dizer a Reforma. Acontece que como em Portugal temos de fazer IRS, impostos blabla, aqui temos estes dois "Piliers" que juntos nos dão a reforma. Ambos saem todos os meses do vosso salário automaticamente e não têm de se preocupar em esperar pela altura do ano onde têm de pagar impostos ou preencher declarações. Explicando para miúdos imaginem uma barra com a mensalidade da vossa reforma, 50% vem das prestações que pagaram à AVS que é a reforma principal, depois 25% são um suplemento que sai das prestações pagas ao 2ème Pilier que são para tornar a reforma mais confortável, e ainda há outros 25% de um Seguro Opcional que os suissos gostam de pagar para tarem no conforto reformados, que nós imigrantes quase nunca escolhemos pagar, mas é o 3ème Pilier de cujas prestações mensais sai esses 25% finais.
Quando chegam na Suíça têm de fazer uma atestação de chegada no país, ou seja, ir à Comuna e pedir este documento onde escrevem a data que entraram para eles verem que não passaram dos 3 meses limites. Aqui eles não pedem qualquer prova, portanto .. sintam-se livres de meter a data que quiserem... Eu por exemplo encontrei trabalho no início do 3o mês, mas há quem tenha demorado muito mais e tenham jogado com essas datas.
Ao mesmo tempo que assinam um contrato de trabalho vão ter de abrir uma conta bancária basicamente no mesmo dia, para poderem dar esses dados à entidade patronal.
No trabalho a folha de salário divide-se em vários pontos onde vem no topo o salário bruto que ganham 3800 francos por exemplo, dando-vos o salário que eu ganhava no primeiro trabalho que tive, que depois vai sendo cortado para pagar as várias coisas que aqui são obrigatórias. Começo pelo AVS (1er Pilier) e o LPP (2ème Pilier) e já vos falei anteriormente do que se trata cada um. Temos depois uma percentagem para o Seguro de Acidente de trabalho caso aconteça algo, um Seguro de Desemprego para o caso de irem para este, uma parte de alimentação e bebida se tiverem adquirido no contrato entre outros que não me lembro. Recordo-me que onde trabalhei a comida era opcional e a bebida obrigatória de pagar. Tudo retirado dava-me um total de 3000 e qualquer coisa, que era o dinheiro que ficava para mim, para pagar as minhas coisas.
Um pequeno aparte para o desemprego. Aqui só poderão usufruir deste se trabalharem um ano sem interrupções.
Para quem vem de fora e fez estudos ou formações fora, antes a Suíça obrigava a passar por um processo de fazerem algo extra aqui, um ano de estudos no meu caso para o Turismo. Mas agora tudo mudou. Com o acordo de livre passagem dos europeus, a Suíça é obrigada a aceitar e reconhecer os nossos estudos, basta que se dirijam a uma entidade que faça a tradução dos documentos e a carimbe ou atentique, eu escolhi a Alliance Française que há em vários locais em Portugal.
Um aparte para esse Acordo de Livre Passagem. Indo para a Suíça não precisam de se preocupar em manter a vossa situação de IRS ou Segurança Social, Finanças sempre controlada em Portugal. Aqui tudo é pago normalmente. E se tiverem propriedades em Portugal cabe a vocês declararem-nas nos impostos suíços ... ou não.
Um parágrafo para a carta de condução. Aqui podem pedir o formato suíço da carta (muito mais feio) mas estejam certos do que vão fazer, se não conduzirem nunca não façam, de qualquer forma têm um ano para decidir alterar ou não, se o fizerem como eu, em alguns minutos têm a carta nova por um custo mínimo, mas eu quase nunca a usei, não era necessário. Saibam que para regressar a Portugal um dia o processo será semelhante, um ano para alterar para a versão portuguesa.
Vir para a Suíça é praticamente alterar a rotina, a vossa rotina será aprisionada em casa-trabalho e vice-versa, claro que se conseguirem aguentar nights e festa, e tudo mais, muito bem, mas fazerem essas escolha é abdicar de outras, pois essa é uma escolha muito cara. Estar aqui permite-vos de ir longe em objectivos e realizar alguns pontos importantes dos vossos objectivos e sonhos, os meus eram quase todos viagens e eu viajei sem parar imensas vezes, e a certo ponto equilibrei os meus objectivos com a compra de uma casa em Portugal. A certo ponto têm de pensar até quando querem estar nesta vida, se algum dia vão querer regressar, se sim, o que querem ter lá quando regressarem ou como querem que seja a rotina quando regressarem, ponderar se vão querer estar assim por muito tempo - sozinhos ou em casal, etc.
Posso dizer-vos também que se mantiverem as boas escolhas e formas de não gastarem muito dinheiro como faziam em Portugal, em compras e afins, aqui vão conseguir poupar bastante.
Saltando de novo para o aluguer de uma casa, refiro que aqui todas as gerências pedem o pagamento de uma caução que ronda quase sempre os mil francos, que se não os tiverem em mãos, a gerência vos faz inscrever numa agência de cauções que vos cede a caução e a qual pagarão uma mensalidade anual. Eu tive de aceitar pois não estava preparado com esta informação, mas se poderem ter esta prestação anual a menos para pagar, pode ser útil.
Ao serem aceites numa casa, são automaticamente inscritos na companhia de electricidade e aquecimento, cujo valor vem numa factura conjunta. Na Suíça não se paga água, apenas o "aquecimento" da mesma se optarem por água quente; além do aquecimento em casa que é ligado automaticamente quando as temperaturas baixam imenso, o que acontece regularmente nas estações mais frias. Para o aquecimento é uma percentagem que se paga, portanto no fim de cada ano contem com o acerto, no meu caso eu recebo sempre pois como é um pequeno apartamento não gasta muito e recebo imenso no fim do ano de reembolso, mas sei de casos que pagam bastante. Com um apartamento vem também a inscrição obrigatória com a ECA ou seguro de incêndio, não é opcional, mesmo que a casa esteja vazia, e chegam a pagar um montante de 20 francos anuais.
Uma ligação com a casa é a Billag, que é a entidade que regula a captação de sinal de radio e tv. Eu considero esta entidade bastante ridícula. Se tiverem TV, telefone, computador, um carro, esta prestação que pode ser trimensal é obrigatória e ronda os 100 e poucos francos cada trimestre. Quer dizer que com estes aparelhos vocês podem ouvir musica e videos etc, logo para eles pagam. Mesmo tempo contratos de tv, telefone ou internet ilimitada, pagam na mesma esta entidade à parte.
Outro ponto a ter em atenção para aqueles que têm animais é verem nos anúncios se aceitam animais ou não para não vos meterem na rua.
Faço um pequeno aparte para estes dizendo que aqui há vacinação que é obrigatória, assim como a alteração na morada do Chip do animal, considerando que este tem chip senão terá de meter um. Não há prazo para fazer isso, mas convém no caso de um controlo ou de viagem com o animal, podem retirar-vos o animal.
Voltanto ao apartamento, as pessoas aqui na Suíça são muito complicadas e abusam com as regras e o respeito das mesmas, no caso da vizinhança e do barulho que possam fazer em casa, acontece muito os vizinhos queixarem-se à gerência sem mesmo falarem com vocês e dias depois recebem um aviso em casa a ameaçar que serão expulsos sem mesmo ouvirem a vossa versão da história, depois de um número de queixas são mesmo expulsos. Portanto este é um ponto muito importante.
Os apartamentos na Suíça ou 95% deles não é permitido terem máquina de lavar roupa, por isso este é um ponto a habituarem-se. Cada prédio tem uma cave ou duas, com máquinas de lavar e casas de estender e secar roupa, pelo menos no meu caso que sou hiper paranóico com lavagem de roupa e usar máquinas que todos usam, foi difícil e tenho de estar sempre munido de detergentes bons e anti bactérias para lavar a minha roupa onde outros que nem sequer conheço lavam. Além do que haverá um horário mensal definido a explicar os únicos dias em que o vosso apartamento pode lavar, no meu caso, como é um pequeno estúdio eu só tenho uma tarde de 15 em 15 dias, o que é horrível.
Uma coisa boa na Suíça, ou não, são os contratos de telefone, aqui com uma fidelização de dois anos na companhia, podem ter um telefone gratuito, seja ele qual for, mas tenham atenção se quiserem anular o contrato, aí a ultima conta será o preço do telefone por terem cancelado, ainda que se cancelarem poderem guardar o telefone. Mas aqui os contratos são muito bons, a preços baixos e com regalias que não temos em Portugal no que respeita ao limite de tráfego internet, chamadas e mensagens, aqui não há limites. O mesmo para os contratos de internet, que para pessoas como eu que não vivem sem um PC, aqui a um preço razoável têm internet ilimitada cujo valor vem junto com a conta da luz e aquecimento.
Antes de acabar faço uma pequena referência para a vossa preparação para se depararem com trabalhos que em nada têm a ver com aquilo para o qual estudarem... género, empregado de mesa, balcão, limpeza, loiças etc, que a maioria aceita aqui para começar a aprender o francês e só depois quando estão confortáveis saltam de área de trabalho.
Eu pessoalmente gosto de evitar as comunidades portuguesas, e não me julguem quando digo isso, apenas se vierem irão tirar as vossas próprias conclusões, mas eu mantive o meu nível de exigência desde o início, concretizei os meus objectivos, e nunca fiquei com a mania das grandezas por viver na Suíça. Ao contrário de muitos que a primeira coisa que fazem quando para cá vêm é comprar um carro, e ir viajar para Portugal de carro para se exibirem, e que mais tarde já se recusam a falar português ou fazem uma mistura das duas línguas, imensos pontos com os quais não estou de acordo. Além de haver uma pequena minoria problemática que dá imensos atritos aqui, e insulta os suíços em portugues, etc o que torna uma grande parte da população aqui racista contra nós.
Faço um pequeno aparte para quem tem carro, não aconselho a trazerem, é muito dispendioso trocarem as placas aqui, mais vale venderem e comprar outro aqui... se precisarem realmente de um carro. E para a actualização de documentos pessoais, que podem fazer aqui no Consolado mas não aconselho, se poderem fazer isso tudo em Portugal podem manter o máximo da vossa raiz em Portugal. Fazer aqui implica que a morada oficial fique a daqui, e cada vez se sentirão menos portugueses. Já para não falar que um dia mais tarde se voltarem para Portugal, são mais coisas a trocar e mudar.
Acho que falei de tudo o que era importante sobre imigrar para a Suíça. Espero ter ajudado.
Ricardo.
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