quarta-feira, 20 de abril de 2016

Viver na Suíça !! *

Já vos tinha escrito anteriormente sobre o que fazer para viverem e trabalharem na Suíça, e como já viram não é sempre fácil, e por vezes é apenas uma questão de sorte.
Este pequeno post é agora para vos dar um pouco a minha perspectiva de como é viver aqui, e aviso já que as minhas opiniões não são as melhores.
Mais uma vez refiro que, sim vale a pena vir, endireitar a vida, avançar na compra de coisas importantes, aqui ganham suficientemente bem para isso tudo, mas a que preço?
Os costumes, as tradições, as personalidades, a carga horária no trabalho, os trabalhos abaixo da expectativa, tudo isso vai transformar-vos a um ponto impensável, e a muito custo voltarão a ser a pessoa que eram antes de vir para a Suíça.
Os suíços são super racistas, não porque não gostem de portugueses, mas porque aqui há imensos, e não só portugueses, o nível de imigrantes aqui é muito elevado e há imensas comunidades neste pequeno país. Portanto não esperem que um suíço, um patrão, uma empresa vos receba de braços abertos. Por outro lado eles reconhecem que nós somos mais esforçados, que temos mais experiência, embora com menos formações em geral, que somos mais fiéis e duráveis numa empresa. E os outros suíços que perdem os postos de trabalho não ficam nada contentes com isso, pois estudam imensos anos, e os estudos aqui custam muito caros, para depois serem substituídos por nós. Em contrapartida, nós aceitamos trabalhar em postos mais reles e baixos para conseguir chegar onde queremos, aprender a língua, conseguir documentos e tudo mais e eles não querem fazer esse tipo de trabalhos, falo de limpezas, construção, empregados de mesa e balcão, etc.
Na Suíça não há vida social. Bem aqui as opiniões dividem-se, há aqueles como eu que vêm para cá, integram-se, ainda saem um pouco ao início e socializam mas a certo ponto lembram-se dos  motivos que os fizeram vir para aqui e começam a eliminar objectivos de vida, comprar casa, carro, viajar, etc, e preparam uma boa vida, depois regressam a Portugal, ou apenas continuam aqui a conseguir mais e mais, e estes que ficam são em regra geral, famílias, casais, filhos que têm cá os pais, ou pessoas mais velhas; outros como eu acabam por ir embora quando já atingiram a meta, ou o limite de paciência.
E depois há a outra minoria que vêm para cá e faz exactamente a mesma rotina que fazia em Portugal, de não avançar na vida, ficar apenas estável no trabalho, sair socializar todas as semanas, nights, vida nocturna, e assim se mantém durante anos, e a vida passa. Estar aqui pode ser muito mau, e muito bom nesse aspecto. Pessoas que sabem escolher o produto mais barato na loja, economizar como faziam em Portugal onde não havia muito dinheiro, etc, essas pessoas chegam muito longe, os outros nem por isso.
Os suíços têm uma personalidade muito fria, são muito secos e rígidos, e não têm pena de ninguém, eu vi isso em inúmeras situações, principalmente em entrevistas de trabalho, onde é uma chacina; e sobretudo trabalhando em restauração e lidando com os clientes. Agora há duas coisas que acontecem normalmente, recuam e voltam para o vosso canto pois ficaram ofendidos por eles serem como são, e daí faz com que fiquem sempre em cargos onde não lidam muito com os clientes; e os outros que se adaptam, não se calam, e a personalidade vai sendo alterada à força para saber lidar com eles. Este foi o meu caso, levei tanta martelada, fui tão empurrado que comecei a certo ponto a reagir, a responder, e isso tornou-me numa pessoa que eu não gosto, reconheço que é mais forte e me protege mas deu-me uma parte suíça que eu não gosto nada mesmo.
Aqui há hábitos de vida, rotina, casa e trabalho que nós em Portugal não estamos habituados a ver, simplesmente porque a vida é menos regrada e mais simples, e isso faz bastante falta. Aqui há regras para tudo, há sanções pesadas para quando não se cumprem.
Um exemplo bem rápido são os sacos do lixo, aqui só os sacos oficiais do lixo podem ser usados para o mesmo e colocados no contentor, se usamos outros, eles retiram e metem no chão e não levam, e se apanham quem o fez essa pessoa é penalizada, e esses rolos de sacos são hiper caros. O que obriga as pessoas a reciclar imenso para colocar o menos possível de lixo nos sacos oficiais, e cada prédio está fornecido com os seus contentores de cartão, vidro e lixo normal, sendo que cada rua tem um outro contentor para roupas e sapatos, latas e afins. E há um dia ou dois por mês em que carrinhas vêm buscar coisas maiores como móveis, aparelhos, entre outros.
Outra coisa diferente é andar nos autocarros e metro da cidade, que possuem várias linhas que vão para diferentes zonas da cidade, e para os quais temos passes que temos de tirar mensalmente, quase 97% das vezes não existem controladores, eles apostam na fidelidade das pessoas e confiam que eles tirem sempre passes e bilhetes e nunca vêm controlar. Por outro lado, nas raras vezes que controlam, podem multar com penalizações enormes.
Multas de trânsito por incumprimentos do que quer que seja também não são fracas.
Nos nossos prédios, na maior parte deles as casas estão todas proíbidas de terem máquinas de lavar, por isso as gerências fornecem uma casa na cave com máquina de lavar e secar, e em algumas uma casa com ventilação para quem não quer usar a máquina de secar. Os senhorios da gerência, fornecem-nos cartas que carregamos com dinheiro e usamos pagando cada lavagem, há um aparelho próprio que metemos a carta e ela activa a máquina de lavar ou secar. E cada apartamento do prédio tem o seu dia específico da semana para lavar, no meu caso e no meu prédio, como eu tenho um estúdio pequeno, só tenho uma tarde para lavar de 15 em 15 dias, ou seja duas vezes por mês, o que a princípio foi difícil de engolir.
Em regra geral a vida na Suíça é cara, ir a restaurantes é caro, sair à noite é caro, comer fora caro, comprar nas lojas caro, transportes caros, e por aí fora, vai ser preciso uma fase de adaptação para reaprender a gerir o dinheiro, principalmente a nível de saúde, pois como já referi no anterior post, os seguros de saúde aqui são caros, mas até passarem o limite mensal do seguro que têm, têm de pagar tudo, e consultas aqui é horrível.
Aqui há também médicos de família onde vão e se queixam, mas eles quase nunca vão a fundo no problema. Aqui existem pequenas clínicas para cada divisão do corpo, e quase sempre o médico vos direcciona para essas clínicas e acabam por pagar o médico e depois a clínica – ridículo. Em contrapartida, se tiverem de ser operados a algo não existe nunca tempo de espera como se fala imenso em Portugal, é super rápido nesse aspecto. Pessoas como a minha mãe por exemplo que têm imensos problemas de saúde, quando passam o limite mensal pago pelo seguro, aproveitam para se queixar de tudo o resto e fazer as operações que têm a fazer, o que é tudo gratuito depois de terem passado o limite.
Outro problema na Suíça é para ter um carro, além de ser muito caro, até o simples facto de estacionar é caro, ninguém que não pertença a determinada zona da cidade pode estacionar sem um documento no carro que calcula a hora em que estacionou e depois há um limite para ali deixar a viatura. Os outros que ali vivem têm de comprar uma autorização de estacionamento, digamos portanto que não compensa andar de carro na Suíça pois é um atrofio com estacionamentos e pagamento de parques para estacionar.
A comida tradicional não presta, tudo reside à base de molhos, e comida mal passada que eu pessoalmente não gosto, mas o pior de tudo é o facto de ser “gourmet” e eu gostar de comer abastadamente. Claro que se formos para o lado “fondue” ou “raclette” a coisa ainda vai muito bem, pois é um excelente prato, ou digamos se vamos a lugares de comida tradicional portuguesa ou espanhola, brasileira ou italiana, também, mesmo em fast food eles não são muito ricos e apenas ficam pelo básico.
Outro ponto ainda dentro da gastronomia é o “chocolate” ... sim é bom, mas não é um “tenho de o provar obrigatoriamente”, ok há mais variedade, porque há muitas empresas sediadas aqui, mas nada de especial.
Um ótimo factor que eu gosto aqui é o nível de criminalidade ser bastante baixo. As ruas e a noite são razoavelmente seguras, claro que há gente parva em todo o lado e há sempre que ter atenção, mas considero segura a cidade onde vivo. Também o facto de as penalizações serem hiper elevadas dá um pouco de medo à coisa. E por conseguinte, aqui ser diferente até não é muito mal visto, minorias aqui podem estar tranquilas que não são vistas de forma diferente. O nível de aceitação é relativamente bom.
Um factor que eu não gosto aqui são “os portugueses” e passo a explicar, há uma grande percentagem de portugueses que vêm para aqui e tentam viver como se estivessem em Portugal, recusam-se a integrar, recusam-se a aprender, a falar a língua do lugar onde estão e apenas socializam entre eles, não gosto disso, e ficamos com uma reputação muito má. Além do mais já aconteceu ver alguns que insultam mesmo as pessoas em português como se ninguém os entendesse.
Estar na Suíça é gostar da solidão, mas até para quem gosta da solidão tem os seus limites. Fazer uma rotina de casa-trabalho e focar-se nisso não é fácil, enfrentar os desafios sozinho, aprender a língua, e para alguns casos fugir dos laços de afecto, como eu, que por não gostar do país não me deixei aproximar de ninguém para não magoar as pessoas por me ir embora um dia mais tarde. Tudo isto pode pesar muito no estado depressivo de alguém. Até mesmo socializar. Basta lidares com alguém que faça uma rotina diferente da tua ou não tão económica e que para estares com essas pessoas tenhas também de sair à noite e “gastar dinheiro”.. nem sempre é fácil.
Mais uma vez refiro que as prioridades com que vêm para cá nunca devem ser esquecidas. Eu vim pelo simples facto de experimentar algo novo, orientar-me financeiramente pois tinha algumas coisas para pagar em Portugal que poderia na mesma pagar em Portugal, mas vir para cá fez com que as pagasse mais rápido. Vim para me aproximar mais da minha família, o que consegui, e que eles me aceitem como eu sou. E por fim quando nada mais fazia sentido eu optei por satisfazer o meu gosto em viajar, e conheci quase a Europa toda. Ainda tive uma mini fase de querer ir para Paris e viver e fazer montes de coisas lá, pois é a minha cidade favorita da Europa, mas passou-me. Mas acima de tudo nunca esquecer as prioridades e que as coisas façam sentido, pois quando já não fizer sentido têm de ter força para seguir para a próxima fase da vossa vida. Eu quase me perdi já para o fim, e quase não tive forças para sair deste limbo onde estava.
E digo-vos mudar de país depois de terem saído de Portugal, ou sair de um país para regressar a Portugal é tão ou mais difícil como o primeiro passo que deram ao sair de Portugal, e há igualmente o mesmo número de chatices.
Um dos pontos positivos que se tornaram negativos na Suíça é o frio. Eu adoro frio, chuva, inverno e o tempo assim “xoxo” como diz a minha avó. Mas aqui tudo foi a um nível muito mais acima do esperado. O frio é abusivo, o vento com frio, ou tudo isto com neve em vários meses do ano, podem arrasar com tudo, a pele queima, os lábios secam, em certas partes do país bem altas é quase impossível respirar, de tão puro e frio que é o ar. E torna-se difícil manter a rotina com estes factores climáticos, há dias em que a neve é tanta, ou manhãs em que os autocarros simplesmente não sobem as ruas com tanta neve, e trabalhos e escola têm de ser cancelados por esses factores.
Um factor interessante aqui é o pagamento de contas. Tudo aqui se paga em buletins que vêm para casa com uma data limite para as pagar, se não pagam a primeira, chegará uma segunda com um valor acrescido e vão até três avisos, se continuarem sem pagar. Se ao terceiro aviso não pagarem a dita conta, a entidade pode ir à justiça e o valor sairá automaticamente do vosso salário no fim do mês sem que vocês possam contestar. Uma coisa boa é o facto de poderem ir à farmácia quando tiverem de ir mesmo sem dinheiro e darem o vosso cartão de saúde e mais tarde a conta ir-vos para casa.
Aqui as pessoas não gostam de ser incomodadas, qualquer coisa chamam a polícia, eu vejo muito acontecer isso em relação ao barulho entre vizinhos. Ao mínimo incómodo as pessoas contactam a gerência que vos envia logo um aviso que quando chega ao terceiro vocês são obrigados a trocar de casa. E eles nem se preocupam a ouvir a vossa versão da história.
Outra cena super chata aqui é o Desemprego, para começar, para terem direito ao mesmo têm de ter trabalhado 12 meses sem interrupções, e mesmo depois de conseguirem ter direito ao desemprego há imensas regras e controlos, são hiper chatos.
Ah, aqui têm uma mania muito chata de ir propôr serviços porta a porta, e de conseguirem puxar conversa, e ainda para mais têm a mania de aproveitar-se de pessoas que falam mal francês para as meterem em contractos que elas não desejavam. Desde telefones, a mudanças de seguro de saúde e internet, geovás, greenpeace, há de tudo um pouco, o melhor é fazerem como eu, ou não abrirem a porta, pois toda a minha família ou amigos que me visitam sabem que além de tocar na campainha têm de me chamar para eu poder ouvir a voz deles; ou abrir a porta e ser frio e mandá-los embora sem mesmo ouví-los falar.

Bom e acho que fiz um bom apanhado do que eu pude reter da Suíça. Estou contente que vá terminar em breve, foi uma carga muito grande viver aqui, transformou-me, transformou a minha personalidade. É verdade que sou mais forte agora, mas a que ponto me transformei, tive cortes muito grandes no meu espírito e a muito custo tou a tentar recuperar um pouco da minha essência perdida. Boa sorte para quem quiser tentar.
Ricardo.

Sem comentários:

Enviar um comentário