Já vos tinha escrito anteriormente sobre o que fazer para viverem e
trabalharem na Suíça, e como já viram não é sempre fácil, e por vezes é apenas
uma questão de sorte.
Este pequeno post é agora para vos dar um pouco a minha perspectiva de como
é viver aqui, e aviso já que as minhas opiniões não são as melhores.
Mais uma vez refiro que, sim vale a pena vir, endireitar a vida, avançar na
compra de coisas importantes, aqui ganham suficientemente bem para isso tudo,
mas a que preço?
Os costumes, as tradições, as personalidades, a carga horária no trabalho,
os trabalhos abaixo da expectativa, tudo isso vai transformar-vos a um ponto
impensável, e a muito custo voltarão a ser a pessoa que eram antes de vir para
a Suíça.
Os suíços são super racistas, não porque não gostem de portugueses, mas
porque aqui há imensos, e não só portugueses, o nível de imigrantes aqui é
muito elevado e há imensas comunidades neste pequeno país. Portanto não esperem
que um suíço, um patrão, uma empresa vos receba de braços abertos. Por outro
lado eles reconhecem que nós somos mais esforçados, que temos mais experiência,
embora com menos formações em geral, que somos mais fiéis e duráveis numa
empresa. E os outros suíços que perdem os postos de trabalho não ficam nada
contentes com isso, pois estudam imensos anos, e os estudos aqui custam muito
caros, para depois serem substituídos por nós. Em contrapartida, nós aceitamos
trabalhar em postos mais reles e baixos para conseguir chegar onde queremos,
aprender a língua, conseguir documentos e tudo mais e eles não querem fazer
esse tipo de trabalhos, falo de limpezas, construção, empregados de mesa e
balcão, etc.
Na Suíça não há vida social. Bem aqui as opiniões dividem-se, há aqueles
como eu que vêm para cá, integram-se, ainda saem um pouco ao início e
socializam mas a certo ponto lembram-se dos
motivos que os fizeram vir para aqui e começam a eliminar objectivos de
vida, comprar casa, carro, viajar, etc, e preparam uma boa vida, depois
regressam a Portugal, ou apenas continuam aqui a conseguir mais e mais, e estes
que ficam são em regra geral, famílias, casais, filhos que têm cá os pais, ou
pessoas mais velhas; outros como eu acabam por ir embora quando já atingiram a
meta, ou o limite de paciência.
E depois há a outra minoria que vêm para cá e faz exactamente a mesma
rotina que fazia em Portugal, de não avançar na vida, ficar apenas estável no
trabalho, sair socializar todas as semanas, nights, vida nocturna, e assim se
mantém durante anos, e a vida passa. Estar aqui pode ser muito mau, e muito bom
nesse aspecto. Pessoas que sabem escolher o produto mais barato na loja,
economizar como faziam em Portugal onde não havia muito dinheiro, etc, essas
pessoas chegam muito longe, os outros nem por isso.
Os suíços têm uma personalidade muito fria, são muito secos e rígidos, e
não têm pena de ninguém, eu vi isso em inúmeras situações, principalmente em
entrevistas de trabalho, onde é uma chacina; e sobretudo trabalhando em
restauração e lidando com os clientes. Agora há duas coisas que acontecem normalmente,
recuam e voltam para o vosso canto pois ficaram ofendidos por eles serem como
são, e daí faz com que fiquem sempre em cargos onde não lidam muito com os
clientes; e os outros que se adaptam, não se calam, e a personalidade vai sendo
alterada à força para saber lidar com eles. Este foi o meu caso, levei tanta
martelada, fui tão empurrado que comecei a certo ponto a reagir, a responder, e
isso tornou-me numa pessoa que eu não gosto, reconheço que é mais forte e me
protege mas deu-me uma parte suíça que eu não gosto nada mesmo.
Aqui há hábitos de vida, rotina, casa e trabalho que nós em Portugal não
estamos habituados a ver, simplesmente porque a vida é menos regrada e mais
simples, e isso faz bastante falta. Aqui há regras para tudo, há sanções
pesadas para quando não se cumprem.
Um exemplo bem rápido são os sacos do lixo, aqui só os sacos oficiais do
lixo podem ser usados para o mesmo e colocados no contentor, se usamos outros,
eles retiram e metem no chão e não levam, e se apanham quem o fez essa pessoa é
penalizada, e esses rolos de sacos são hiper caros. O que obriga as pessoas a
reciclar imenso para colocar o menos possível de lixo nos sacos oficiais, e
cada prédio está fornecido com os seus contentores de cartão, vidro e lixo
normal, sendo que cada rua tem um outro contentor para roupas e sapatos, latas
e afins. E há um dia ou dois por mês em que carrinhas vêm buscar coisas maiores
como móveis, aparelhos, entre outros.
Outra coisa diferente é andar nos autocarros e metro da cidade, que possuem
várias linhas que vão para diferentes zonas da cidade, e para os quais temos
passes que temos de tirar mensalmente, quase 97% das vezes não existem
controladores, eles apostam na fidelidade das pessoas e confiam que eles tirem
sempre passes e bilhetes e nunca vêm controlar. Por outro lado, nas raras vezes
que controlam, podem multar com penalizações enormes.
Multas de trânsito por incumprimentos do que quer que seja também não são
fracas.
Nos nossos prédios, na maior parte deles as casas estão todas proíbidas de
terem máquinas de lavar, por isso as gerências fornecem uma casa na cave com
máquina de lavar e secar, e em algumas uma casa com ventilação para quem não
quer usar a máquina de secar. Os senhorios da gerência, fornecem-nos cartas que
carregamos com dinheiro e usamos pagando cada lavagem, há um aparelho próprio
que metemos a carta e ela activa a máquina de lavar ou secar. E cada
apartamento do prédio tem o seu dia específico da semana para lavar, no meu
caso e no meu prédio, como eu tenho um estúdio pequeno, só tenho uma tarde para
lavar de 15 em 15 dias, ou seja duas vezes por mês, o que a princípio foi
difícil de engolir.
Em regra geral a vida na Suíça é cara, ir a restaurantes é caro, sair à
noite é caro, comer fora caro, comprar nas lojas caro, transportes caros, e por
aí fora, vai ser preciso uma fase de adaptação para reaprender a gerir o
dinheiro, principalmente a nível de saúde, pois como já referi no anterior
post, os seguros de saúde aqui são caros, mas até passarem o limite mensal do
seguro que têm, têm de pagar tudo, e consultas aqui é horrível.
Aqui há também médicos de família onde vão e se queixam, mas eles quase
nunca vão a fundo no problema. Aqui existem pequenas clínicas para cada divisão
do corpo, e quase sempre o médico vos direcciona para essas clínicas e acabam
por pagar o médico e depois a clínica – ridículo. Em contrapartida, se tiverem
de ser operados a algo não existe nunca tempo de espera como se fala imenso em
Portugal, é super rápido nesse aspecto. Pessoas como a minha mãe por exemplo
que têm imensos problemas de saúde, quando passam o limite mensal pago pelo
seguro, aproveitam para se queixar de tudo o resto e fazer as operações que têm
a fazer, o que é tudo gratuito depois de terem passado o limite.
Outro problema na Suíça é para ter um carro, além de ser muito caro, até o
simples facto de estacionar é caro, ninguém que não pertença a determinada zona
da cidade pode estacionar sem um documento no carro que calcula a hora em que
estacionou e depois há um limite para ali deixar a viatura. Os outros que ali
vivem têm de comprar uma autorização de estacionamento, digamos portanto que
não compensa andar de carro na Suíça pois é um atrofio com estacionamentos e
pagamento de parques para estacionar.
A comida tradicional não presta, tudo reside à base de molhos, e comida mal
passada que eu pessoalmente não gosto, mas o pior de tudo é o facto de ser
“gourmet” e eu gostar de comer abastadamente. Claro que se formos para o lado
“fondue” ou “raclette” a coisa ainda vai muito bem, pois é um excelente prato,
ou digamos se vamos a lugares de comida tradicional portuguesa ou espanhola,
brasileira ou italiana, também, mesmo em fast food eles não são muito ricos e
apenas ficam pelo básico.
Outro ponto ainda dentro da gastronomia é o “chocolate” ... sim é bom, mas
não é um “tenho de o provar obrigatoriamente”, ok há mais variedade, porque há
muitas empresas sediadas aqui, mas nada de especial.
Um ótimo factor que eu gosto aqui é o nível de criminalidade ser bastante
baixo. As ruas e a noite são razoavelmente seguras, claro que há gente parva em
todo o lado e há sempre que ter atenção, mas considero segura a cidade onde
vivo. Também o facto de as penalizações serem hiper elevadas dá um pouco de
medo à coisa. E por conseguinte, aqui ser diferente até não é muito mal visto,
minorias aqui podem estar tranquilas que não são vistas de forma diferente. O
nível de aceitação é relativamente bom.
Um factor que eu não gosto aqui são “os portugueses” e passo a explicar, há
uma grande percentagem de portugueses que vêm para aqui e tentam viver como se
estivessem em Portugal, recusam-se a integrar, recusam-se a aprender, a falar a
língua do lugar onde estão e apenas socializam entre eles, não gosto disso, e
ficamos com uma reputação muito má. Além do mais já aconteceu ver alguns que
insultam mesmo as pessoas em português como se ninguém os entendesse.
Estar na Suíça é gostar da solidão, mas até para quem gosta da solidão tem
os seus limites. Fazer uma rotina de casa-trabalho e focar-se nisso não é
fácil, enfrentar os desafios sozinho, aprender a língua, e para alguns casos
fugir dos laços de afecto, como eu, que por não gostar do país não me deixei
aproximar de ninguém para não magoar as pessoas por me ir embora um dia mais
tarde. Tudo isto pode pesar muito no estado depressivo de alguém. Até mesmo
socializar. Basta lidares com alguém que faça uma rotina diferente da tua ou
não tão económica e que para estares com essas pessoas tenhas também de sair à
noite e “gastar dinheiro”.. nem sempre é fácil.
Mais uma vez refiro que as prioridades com que vêm para cá nunca devem ser
esquecidas. Eu vim pelo simples facto de experimentar algo novo, orientar-me
financeiramente pois tinha algumas coisas para pagar em Portugal que poderia na
mesma pagar em Portugal, mas vir para cá fez com que as pagasse mais rápido.
Vim para me aproximar mais da minha família, o que consegui, e que eles me
aceitem como eu sou. E por fim quando nada mais fazia sentido eu optei por
satisfazer o meu gosto em viajar, e conheci quase a Europa toda. Ainda tive uma
mini fase de querer ir para Paris e viver e fazer montes de coisas lá, pois é a
minha cidade favorita da Europa, mas passou-me. Mas acima de tudo nunca
esquecer as prioridades e que as coisas façam sentido, pois quando já não fizer
sentido têm de ter força para seguir para a próxima fase da vossa vida. Eu
quase me perdi já para o fim, e quase não tive forças para sair deste limbo
onde estava.
E digo-vos mudar de país depois de terem saído de Portugal, ou sair de um
país para regressar a Portugal é tão ou mais difícil como o primeiro passo que
deram ao sair de Portugal, e há igualmente o mesmo número de chatices.
Um dos pontos positivos que se tornaram negativos na Suíça é o frio. Eu
adoro frio, chuva, inverno e o tempo assim “xoxo” como diz a minha avó. Mas
aqui tudo foi a um nível muito mais acima do esperado. O frio é abusivo, o
vento com frio, ou tudo isto com neve em vários meses do ano, podem arrasar com
tudo, a pele queima, os lábios secam, em certas partes do país bem altas é
quase impossível respirar, de tão puro e frio que é o ar. E torna-se difícil
manter a rotina com estes factores climáticos, há dias em que a neve é tanta,
ou manhãs em que os autocarros simplesmente não sobem as ruas com tanta neve, e
trabalhos e escola têm de ser cancelados por esses factores.
Um factor interessante aqui é o pagamento de contas. Tudo aqui se paga em
buletins que vêm para casa com uma data limite para as pagar, se não pagam a
primeira, chegará uma segunda com um valor acrescido e vão até três avisos, se
continuarem sem pagar. Se ao terceiro aviso não pagarem a dita conta, a
entidade pode ir à justiça e o valor sairá automaticamente do vosso salário no
fim do mês sem que vocês possam contestar. Uma coisa boa é o facto de poderem
ir à farmácia quando tiverem de ir mesmo sem dinheiro e darem o vosso cartão de
saúde e mais tarde a conta ir-vos para casa.
Aqui as pessoas não gostam de ser incomodadas, qualquer coisa chamam a
polícia, eu vejo muito acontecer isso em relação ao barulho entre vizinhos. Ao
mínimo incómodo as pessoas contactam a gerência que vos envia logo um aviso que
quando chega ao terceiro vocês são obrigados a trocar de casa. E eles nem se
preocupam a ouvir a vossa versão da história.
Outra cena super chata aqui é o Desemprego, para começar, para terem
direito ao mesmo têm de ter trabalhado 12 meses sem interrupções, e mesmo
depois de conseguirem ter direito ao desemprego há imensas regras e controlos,
são hiper chatos.
Ah, aqui têm uma mania muito chata de ir propôr serviços porta a porta, e
de conseguirem puxar conversa, e ainda para mais têm a mania de aproveitar-se
de pessoas que falam mal francês para as meterem em contractos que elas não
desejavam. Desde telefones, a mudanças de seguro de saúde e internet, geovás,
greenpeace, há de tudo um pouco, o melhor é fazerem como eu, ou não abrirem a
porta, pois toda a minha família ou amigos que me visitam sabem que além de
tocar na campainha têm de me chamar para eu poder ouvir a voz deles; ou abrir a
porta e ser frio e mandá-los embora sem mesmo ouví-los falar.
Bom e acho que fiz um bom apanhado do que eu pude reter da Suíça. Estou
contente que vá terminar em breve, foi uma carga muito grande viver aqui,
transformou-me, transformou a minha personalidade. É verdade que sou mais forte
agora, mas a que ponto me transformei, tive cortes muito grandes no meu
espírito e a muito custo tou a tentar recuperar um pouco da minha essência
perdida. Boa sorte para quem quiser tentar.
Ricardo.
Sem comentários:
Enviar um comentário