Porque é que ele não me contou antes?
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Pode ser difícil para ti descobrires que o teu filho/amigo provavelmente levou meses, talvez anos pensando na sua sexualidade e que só agora te está contando. É fácil interpretar isso como falta de confiança, falta de amor, ou como um reflexo da tua atitude enquanto mãe/amiga. E é doloroso perceber que tu não conheces esta pessoa tão bem como pensas-te que conhecias, e que foste excluída de grande parte da sua vida.
Até certo ponto, isso é verdade em todas as relações entre pais e filhos, sejam os filhos heterossexuais ou homossexuais. À medida que os filhos se tornam adultos, acontece uma separação natural entre eles e os seus pais. O teu filho vai chegar a conclusões que vocês não chegariam, e ele fá-lo-à sem vos consultar.
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Alguém disse “depois da minha filha me contar que era lésbica nós ficámos muito mais próximas”.
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Mas, neste caso, consultar-te é ainda mais difícil porque a conclusão à qual o teu filho chegou é tão importante e, em muitos casos, tão inesperada e porque tu ficas-te longe dos pensamentos dele ou dela por tanto tempo.
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É possível que gays e lésbicas se escondam dos seus pais o máximo possível, porque eles precisam de muito tempo para entenderem o que eles mesmos estão a sentir. Por outras palavras, filhos gays, lésbicas e bissexuais normalmente sabem que se sentem diferentes muito cedo, mas pode levar anos para que eles possam entender o que é este sentimento.
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Como nós ainda vivemos numa sociedade que não entende, ou que teme, os gays e as lésbicas, eles precisam de muito tempo para reconhecer a sua sexualidade para eles próprios. Muito frequentemente, os próprios gays interiorizam sentimentos de auto-desprezo ou de insegurança a respeito da sua identidade sexual. Pode levar algum tempo para que uma pessoa reflicta sobre o assunto e acumule a coragem necessária para conversar sobre isso com os seus pais ou amigos. Mesmo que tu aches que a relação entre ti e o teu filho/amigo era tal que ele deveria de saber que podia contar-te qualquer coisa, tudo na forma como a nossa cultura trata a sexualidade manda-o “não fales, não perguntes”.
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Assim, mesmo que tu sofras porque não pudes-te ajudá-lo durante este período difícil, ou mesmo que tu acredites que o resultado poderia ter sido diferente se tu te tivesses envolvido mais cedo, compreende que o teu filho/amigo provavelmente não te poderia ter contado antes. O mais importante é que, ao fazer isso agora, ele te está a convidar para uma relação mais honesta e aberta.
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Porque é que o meu filho/amigo é gay?
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Os pais e amigos normalmente fazem esta pergunta por uma série de motivos: eles podem estar a sofrer pela perda da imagem que tinham desta pessoa que se assumiu, eles acham que fizeram algo errado, acham que alguém “encaminhou” o filho/amigo para a homossexualidade, ou perguntam-se se existe uma causa biológica para a homossexualidade.
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Alguns pais reagem em choque, negação ou raiva à notícia de que o seu filho é gay. Uma reacção é perguntar-se “como é que ele pode fazer isto comigo?”. Esta não é uma reacção racional mas é uma reacção humana à dor. Nós comparamos esta reacção ao processo de sofrimento pela perda: neste momento tu estás a chorar pela imagem que perdeste do teu filho/amigo. À medida que tu elaboras os teus sentimentos, tu podes descobrir que a única coisa que o teu filho/amigo “fez” contigo foi confiar que a vossa relação podia crescer depois que tu soubesses a verdade sobre ele.
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É possível que tu penses que o teu filho foi levado para a homossexualidade por outra pessoa. A ideia homofóbica de que os homossexuais “desencaminham” as pessoas é muito comum, a verdade é que ninguém “fez” do teu filho/amigo um gay, nem da tua filha/amiga uma lésbica. É mais provável que ele ou ela se tenha sentido “diferente” por um longo tempo – nenhuma pessoa ou grupo de pessoas “transformou” o teu filho/amigo.
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Outros pais acham que o comportamento deles, enquanto pais, causaram tal identidade sexual no seu filho. Durante muitos anos, a psicologia e a psiquiatria divulgaram as suas teorias de que a homossexualidade era causada pelos tipos de personalidade dos pais – a mulher dominante, o homem fraco – ou pela ausência de modelos sociais do mesmo sexo. Estas teorias não são mais aceites dentro da psicologia ou da psiquiatria, e parte do trabalho de muitas entidades é apagar estes conceitos errados da cultura popular. Gays vêm de famílias “Modelo”, aquelas com mães dominantes ou submissas, pais fortes ou fracos. Gays, lésbicas e bissexuais são filhos únicos, mais novos, mais velhos, ou do meio. Eles vêm de famílias com parentes gays e de famílias sem parentes gays.
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Muitos pais perguntam-se se existe uma razão genética ou biológica para a homossexualidade. Embora existam muitos estudos sobre a homossexualidade e genética, até ao momento não existem conclusões sobre a “causa” da homossexualidade. Na ausência de dados, eu gostava que reflectisses no porquê de ser importante para ti saberes a razão.
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Será que o apoio ou amor que tu vais dar ao teu filho/amigo vai depender e tu seres capaz de definir uma causa? Nós pedimos aos heterossexuais que nos expliquem a sua sexualidade? Lembrem-se que existem gays, lésbicas e bissexuais em todas as sociedades, religiões, nacionalidades e origens étnicas. Assim, gays, tal como os heterossexuais, são muito diferentes uns dos outros e chegaram à sua sexualidade por diferentes caminhos. Embora seja normal sentir curiosidade sobre a razão da homossexualidade, não é realmente importante saber porque é que o teu filho/amigo é gay para lhe dares apoio e amor.
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Porque é que não me sinto à vontade com a homossexualidade dele/a?
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O desconforto que tu podes sentir é um resultado da tua cultura. A homofobia na nossa sociedade é contagiante demais para ser banida da nossa consciência com facilidade. Enquanto houver homofobia na nossa sociedade, qualquer homossexual e qualquer pai, mãe ou amigo de um gay terá medos e preocupações bastante legítimos e reais.
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Muitos pais podem confrontar-se com outra fonte de culpa. Pais que se acham a si próprios “liberais”, que acreditam que estão livres do preconceito sexual – mesmo aqueles que têm amigos gays – ficam algumas vezes surpresos em reconhecer que não se sentem à vontade quando o filho deles é gay. Estes pais não têm apenas de lutar contra os seus medos da homossexualidade, mas ainda têm de viver com o peso de achar que não deveriam estar a sentir-se da forma como estão.
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Alguém disse “quando eu descobri que o meu filho era gay, a minha reacção foi : ‘o que é que eu posso fazer para mudar isso?’”
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A minha opinião é – concentra-te nas preocupações reais: é o que o teu filho mais precisa que tu faças neste momento. Tenta não concentrar a tua atenção na culpa. A culpa não se apoia em base nenhuma, nem constrói nada para ti ou para o teu filho.
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Será que deveríamos consultar um psiquiatra ou um psicólogo?
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Não tem sentido consultar um terapeuta na esperança de mudar a orientação sexual do teu filho. A homossexualidade não é uma doença para ser curada. Em 1973 já a Associação Americana de Psiquiatria tinha retirado a homossexualidade da lista de anomalias da sociedade, e no Brasil se tinha conseguido através de campanhas nacionais que se abolisse o código que classificava o “homossexualismo” como doença. A homossexualidade é uma forma natural de ser.
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Como a homossexualidade não é uma “escolha”, tu não podes fazer o teu filho/amigo “mudar de ideias”. Há associações que definiram como anti-ético tentar mudar a orientação sexual de um homossexual.
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Mas existem situações em que pode ser útil consultar um terapeuta. Talvez tu queiras conversar com alguém sobre os teus próprios sentimentos e sobre como trabalhá-los. Talvez tu aches que tu e o teu filho precisam de ajuda para se comunicarem mais claramente durante esta fase. Ou talvez tu reconheças que o teu filho está infeliz e precisa de ajuda para chegar a uma auto-aceitação e desenvolver a sua auto-estima. Mais uma vez, os gays passam por dificuldades para se aceitarem a si próprios e à sua identidade sexual. Nestas circunstâncias, a auto-rejeição pode ser um estado emocional perigoso. O terapeuta, deve colocar a sua aceitação em sintonia com a sua homossexualidade.
Em todos os casos, tu tens um leque de opções e recursos. Um terapeuta pode-te oferecer confidencialidade e, até certo ponto, o anonimato que tu podes achar que precisas num primeiro momento.
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Há muitas outras opções de ajuda, informação e aconselhamento, além da, ou em vez da terapia. Eu encorajo-te a explorar as opções dele e a usares recursos para ele se adaptar melhor a ti e à tua família.
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Será que ele/ela vai sofrer de discriminação, vai enfrentar problemas para encontrar ou manter um emprego, ou até mesmo sofrer de agressões físicas?
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Todas estas coisas são possíveis, dependendo de onde o teu filho mora, que tipo de trabalho tem e como se comporta. Porém, a postura em relação à homossexualidade já começa a mudar e agora está mudando relativamente rápido. Existem muitos lugares onde o teu filho/amigo pode morar e trabalhar, mantendo-se relativamente livre de descriminação.
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Infelizmente, mudançãs sociais são sempre lentas – observa simplesmente quanto tempo levou para permitir o voto feminino. Os progressos geralmente são seguidos de recuos. Até que um número maior de pessoas e organizações se tornem defensoras dos direitos dos homossexuais, até que a homofobia tenha sido extinta da nossa sociedade, o teu filho/amigo enfrentará alguns desafios significativos.
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