Como conciliar este facto com a minha religião?
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Para alguns pais ou amigos, talvez esta seja a questão mais difícil de enfrentar. Para outros este problema não existe.
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É verdade que a maioria das religiões continua a condenar a homossexualidade. Contudo, mesmo dentro destas religiões, em gera existem líderes respeitados que acreditam que a posição de condenação da sua igreja é irracional, porque são frutos da má interpretação dos factos bíblicos.
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Muitas religiões importantes assumem actualmente uma posição oficial de apoio aos direitos dos homossexuais. Algumas já foram mais além. O órgão legislativo da Igreja Episcopal declarou que os homossexuais têm direitos iguais aos das outras pessoas dentro desta igreja.
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Tu ainda ouvirás pessoas que citam a Bíblia a defender o preconceito contra os gays. Mas existem estudiosos da Biblia que contestam qualquer interpretação anti-gay dos textos bíblicos.
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O Presidente Bill Clinton (U.S.A.) referiu outrora “aqueles que legalizam a descriminação com base na orientação sexual de uma pessoa ou com base em qualquer outro aspecto estão profundamente enganados a respeito dos valores que fazem do nosso país uma nação forte. O direito básico à igualdade não pode ser negado através de uma votação secreta ou de qualquer outro procedimento”.
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E em relação ao HIV/AIDS?
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Embora no início o HIV se tenha espalhado mais rapidamente entre homens gays e bissexuais e entre usuários de drogas que partilhavam seringas, actualmente todas as pessoas e grupos enfrentam a ameaça do vírus de HIV.
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Portanto, todos os pais e amigos precisam de pensar no HIV – seja o seu filho/amigo gay ou heterossexual. É preciso que tu te certifiques que o teu filho entende a forma como o HIV é transmitido e que saiba como proteger-se.
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Com os jovens a iniciar a sua vida sexual cada vez mais cedo, e com o HIV ainda a espalhar-se, nenhum pai ou mãe pode permitir-se ignorar este perigo, nem imaginar que o seu filho se tem protegido.
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Se o teu filho/amigo é seropositivo ou tem HIV, ele precisa mais do que nunca do teu apoio. Ambos precisam de saber que não estão sozinhos. Existem inúmeras organizações locais e nacionais que podem ajudar-vos com assistência médica, psicologia e física. Nesta altura, a relação entre ti e o teu filho pode tornar-se mais íntima, mas tu e a tua família terão de aprender a ajustar-se às circustâncias físicas e emocionais relacionadas com o novo estado de saúde do vosso filho/amigo.
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Nós aceitamos a situação, mas porque é que ele teve de se assumir homossexual?
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Homens gays, mulheres lésbicas e bissexuais que revelam a sua orientação sexual são às vezes acusados de “gabar” a sua sexualidade. Embora, a menos que eles se assumam, a nossa sociedade falsamente imagine que eles são homossexuais ou que a sua sexualidade é vergonhosa e precisa de ser escondida. Normalmente, o comportamento de gays que são rotulados de “exibicionistas” é considerado despercebido quando adoptado por heterossexuais.
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Talvez te sintas pouco à vontade com as demonstrações públicas de afecto entre o teu filho/amigo e o seu parceiro. Muitos gays, lésbicas e bi’s irão, certamente, censurar o próprio comportamento, com medo de uma reacção pública negativa. Mas para um pouco e pensa: será que tu és tão critica com heterossexuais demonstrando publicamente a sua perfeição?
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Lembra-te que “assumir-se” permite apenas comportar-se de forma natural e relaxada em público. Em outras circunstâncias, é possível afirmar que a sua sexualidade seja uma decisão política. Em culturas onde a homossexualidade é ignorada ou ridicularizada, uma pessoa que mostra a sua sexualidade publicamente pode estar a demonstrar um acto público de amor próprio.
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Será que o teu filho terá uma família?
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Casais de gays ou lésbicas com parceiros permanentes vêm os seus relacionamentos com o mesmo compromisso e com o mesmo sentido de família que os heterossexuais casados. Muitos homens gays e mulheres lésbicas realizam cerimónias de compromisso para celebrar formalmente a sua relação na companhia de amigos e parentes, e mais recentemente com a legalização do casamento homossexual em diversos países, estes podem até mesmo casar se o desejarem.
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Cada vez mais casais gays e lésbicas estão a tornar-se pais e mães. Algumas lésbicas utilizam a inseminação artificial para conceber um filho que possam criar com a sua parceira. Alguns homens gays e mulheres lésbicas, que se assumiram depois de terem tido relacionamentos heterossexuais, estão criando os filhos destas relações com os seus parceiros actuais. Além disso, existem cada vez mais casais gays que adoptam crianças.
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Como vamos contar para a família e amigos?
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Assim como o processo de nos assumirmos como gays é difícil, este processo é igualmente difícil para os pais, que geralmente irão preferir esconder esta situação. Os pais que ainda estão a lutar para aceitar a orientação sexual dos seus filhos, normalmente preocupam-se com a possibilidade de outras pessoas descobrirem. Tu provavelmente terás agora que esquivar-te a perguntas como “ele tem namorada”, “então, quando é que ele se vai casar?”.
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Muitos gays e lésbicas descobriram que os seus medos eram muito piores que a realidade. Alguns deles evitaram durante anos contar para os seus próprios pais, apenas para não os ouvirem dizer “nós já sabíamos disso há muito tempo”.
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O meu conselho para ti é o mesmo que já dei a muitos amigos gays e lésbicas. Lê muito a respeito das origens da orientação sexual e sobre o novo pensamento dentro dos meios médicos, psiquiátricos, religiosos, profissionais e políticos. Existe uma grande quantidade de “autoridades” que tu podes citar como aliados nesta luta pelos direitos iguais para os gays.
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Pesquisa a lista de homens gays, bissexuais e mulheres lésbicas famosos que deram contribuições importantes para o nosso mundo.
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Pratica para ti mesma o que vais dizer aos outros e para ti mesma, como tu gostarias que fosse uma conversa ou as respostas a serem dadas numa entrevista de trabalho. Pratica como farias para teres uma atitude firme ou para enfrentares qualquer coisa que te deixe com medo, nervosa ou como tu praticarias para fazer algo com o qual não tens experiência. Já li a história de um pai que dizia “constumava ir para o WC, fechava a porta e ficava ensaiando em frente ao espelho ‘eu tenho uma filha lésbica’ e repetia esta frase com orgulho”; e isso ajudou-o. Mas tu tens mesmo que praticar. Esse mesmo pai disse “quando me “assumi” e disse ‘eu tenho uma filha lésbica’ isso fez com que os outros pais e mães achassem mais fácil de lidar com esta questão e “assumir-se” também. Eu vi isso acontecer muitas vezes”.
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Conversa com pessoas que entendem as tuas preocupações.
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Há a probabilidade de ouvires comentários negativos ou, no mínimo, indelicados, de familiares, amigos ou colegas. Mas tu provavelmente vais descobrir que estes comentários são menos do que os que previas.
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Lembra-te que o teu filho já percorreu este caminho antes. Talvez ele mesmo te possa ajudar neste sentido.
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Lembra-te também que as pessoas com quem tu falarás a respeito da sexualidade do teu filho devem ser escolhidas juntamente com ele.
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O que os vizinhos vão dizer?
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Esta pode ser uma preocupação muito real, principalmente para as famílias que se consideram parte de uma comunidade muito unida ou em regiões onde as religiões são muito fortes.
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Contudo, lésbicas, gays e bissexuais vêm de famílias de todos os cantos do planeta, de todas as culturas, religiões, grupos étnicos e profissões. Como disse uma mãe “eu juro por Deus que pensei que era a única mãe que tinha uma filhá lésbica, então eu começei a falar sobre isso e outros pais começaram a desabafar também”.
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Repetindo, é bem possível que encontres reacções difíceis de aceitar, e que o teu filho enfrente situações de preconceito.
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De que forma posso apoiar o meu filho/amigo?
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Como pai, mãe ou amigo, tu podes cuidade de ti e do teu filho/amigo. Há grupos de defesa dos homossexuais prontos a ajudar a superar as vossas necessidades pessoais para que tu possas ser uma mãe, pai, amigo ainda melhor.
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Ler isto tudo é um primeiro passo para ajudares – demonstras-te estar aberta a informações novas e eu espero que agora todos estejam bem informados. Apoiar o teu filho/amigo deve ser agora uma extensão natural do teu apoio geral como mãe/pai/amigo: nós precisamos conversar, ouvir e aprender juntos.
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Cada filho/amigo precisa de coisas diferentes dos seus pais/amigos. Cabe-te a ti aprender a comunicares-te com ele sobre as suas necessidades e as questões relacionadas com a sua suxualidade.
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Alguns pais e mães acham que conseguem compreender e apoiar o seu filho, quando reconhecem as semelhanças e diferenças com as suas próprias experiências. Em alguns casos, talvez seja útil conversar sobre como tu lidas-te com incidentes dolorosos. Em outos casos, contudo, tu tens de reconhecer que a forma como ele sofre descriminação sexual é incomparável. Neste caso, tu tens de apoiar o teu filho, aprender o máximo possível sobre homossexualidade e ajudar a trazer esta discussão para a nossa sociedade. É o facto de se usar uma máscara todos os dias que leva ao silêncio que permite haver preconceito e descriminação.
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Aprenderei a lidar com a orientação sexual do meu filho?
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Um psicólogo respondeu a uma pergunta semelhante dizendo “quando a maioria das pessoas se ajustar à realidade da orientação sexual do seu filho, eles descobrirão que existe um mundo completamente novo à sua frente. Em primeiro lugar eles começam a conhecer um lado do seu filho que nunca tinham conhecido. Agora eles fazem parte da vida desta filho. De uma forma geral eles tornam-se mais unidos. E os pais começam a conhecer a comunidade gay e a entender que estas pessoas são iguais a todas as outras”.
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Para saber melhor esta resposta nada como ler a opinião de outros pais:
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“Eu cheguei a um ponto em que me sentia triste e pensava o que é que eu iria responder quando alguém me perguntasse “como é que vai o Carlos?”. Foi aí que a resposta me surgiu: O Carlos está bem, eu é que não estou. E depois de ter chegado a este ponto, tudo ficou mais fácil, quando conheci os amigos do Carlos, descobri que eles são pessoas maravilhosas e percebi que ele é parte de um grupo muito bom. Então, qual é o problema? O problema é a sociedade. Foi aí que eu entendi que tinhamos superado a pior parte “mãe de um rapaz gay”.
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“Acho que o ponto fulcral para mim foi quando li mais sobre este assunto e vi que a maioria dos jovens que conseguem aceitar a sua sexualidade se sentem mais tranquilos, mais felizes e seguros. E é claro que era isso que eu queria para o meu filho e eu com certeza que não queria ser aquilo que o impediría de ele chegar a esse estado”
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Eu passei três meses tendo crises de choro. Mas sempre tivemos um relacionamento muito bom e isso nunca mudou. Nós nunca tivemos um momento de dúvida sobre o nosso amor por ele e nós os dois afirmámos na mesma hora que o amávamos. E desde então o relacionamento com o nosso filho tem ficado cada vez mais forte, pois estamos únidos simplesmente por sabermos tudo o que ele tem de enfrentar na nossa sociedade”.
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“Conversar sobre a homossexualidade é realmente muito importante, saber se tu não estás sozinho e que outras pessoas passaram pela mesma experiência e estão lidando com isso de uma forma positiva. E a vantagem é que tu desenvolves uma boa relação com o teu filho. Os pais querem cuidar dos seus filhos. De uma forma geral, eles não querem ser isolados dos seus filhos”.
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“Eu preciso de vos contar, existem tantas coisas positivas agora. Tu começas por reconhecer que o teu filho é incrível, que partilha tudo contigo e quer que sejas parte da vida dele. Repara na confiança que ele depositou nas tuas mãos e na coragem que ele precisou para fazer isso”.
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“Para mim, foi o facto de o meu filho me dizer “Pai eu sou a mesma pessoa de antes”. Agora que se passaram seis meses, eu percebo ainda mais claramente que realmente nada mudou na vida dele. Acho que era mesmo o que nós imaginávamos que ele seria.”
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“A maioria de nós é como um trevo de três folhas – bastante comuns, ningúem nos dá atenção – mas de vez em quando encontramos um trevo de quatro folhas – uma descoberta rara e maravilhosa. Eu lembro-me que, quando era pequeno passava horas procurando este trevo de quatro folhas. De vez em quando eu encontrava um e guardava-o dentro de um livro ou entre folhas de papel encerado. Este trevo era como um tesouro para mim, algo que eu queria cuidar e proteger. A minha filha é como um desses trevos de quatro folhas, acontece que ela tem uma orientação sexual diferente da minha. Ela é um tesouro para mim, alguém que eu quero proteger. Um trevo de quatro folhas não é anormal, apenas é raro e diferente dos outros. Eu nunca pensaria em arrancar uma das folhas para que ele parecesse com um trevo de três folhas”.
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Por fim deixo-vos uma dica do melhor filme que já ti até ao momento a retratar o assunto da homossexualidade: “Prayers for Bobby”.
- Espero que estes três posts vos tenham sido úteis.
Ricardo Ruaz
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