quarta-feira, 20 de abril de 2011

Portimão


E eis que a
cidade

fica ao abandono


Partimos
tristes,

tão tristes


Como quando chegámos


Partem as ruas que subimos


Partem as esquinas, partem as luzes


Passos perdidos que demos


Partimos com os nossos olhos


Na procura de quem somos


E como nós partem aos molhos


Sonhos que já esquecemos


Partem as esperanças maduras


Que as verdes já perdemos.


Parte o rio para o mar


Cheio de lágrimas duras,


Pedras negras, que a chorar


Fazem faíscas nas ruas.


Lá, ficam os gritos calaos


Congelados pelo tempo


E como nós, homens pasmados


Forçados ao momento


Que também nos já passámos


Ficam das aves as asas


Marcadas no azul


As nossas vozes perdem-se


Pelas casas que marcámos no Sul


Ficam as mãos cansadas


Como as de quem perdeu


Como as horas dançadas


Que a brisa já esqueceu.


E estes dois corpos vencidos


Deixados ao desespero


De apenas terem nascido


Ser de facto verdadeiro


Que o tempo come tudo


Sem nada deixar para trás


Ficam os nossos restos, parte do nosso
mundo,


Agarra-se quem é capaz,


Até se irem os dedos


Para onde tudo jaz


Partem as esperanças ficam os medos


E a memória do que foi


Parece roer-nos os ossos


Em dor lenta que só dói.

Ficam os sonhos estragados

Como peso na mochila,

Sebentas que de tão gastas

São uma papa de argila…


terça-feira, 19 de abril de 2011

Magoas-te-me!



Hoje magoas-te-me!


Hoje era suposto ser mais um
dia normal como tantos outros em que eu metia a minha máscara de filho que não
dá problemas e tu a da mãe que não quer ver que tem um filho homossexual.


Mas não foi, não dirigis-te
actos agressivos para mim, mas usas-te palavras duras, naquela conversa que era
suposto ser uma brincadeira, tu respondes-te-me de uma forma tão dura, tão
seca, as tuas palavras foram como lâminas no meu coração, eu nem te consegui
dirigir um falso sorriso, como normalmente faço, eu fiquei estagnado, abismado,
magoado, eu limitei-me a ficar apático perante a tua resposta e parado no mesmo
lugar.


E então quando caí na
realidade e reflecti sobre o que tinhas dito só me apeteceu chorar, chorar e
dizer-te tudo o que tinha para te dizer, quer te magoasse, quer não te
magoasse, eu queria dizer-te, pois queria ripostar com iguais palavras
cortantes e te magoar como me tinhas acabado de fazer. Não tens noção do que
dizes muitas vezes, não dás valor ao filho que tens, à irmã que tens e te
acolheu em sua casa, não dás valor aos amigos homossexuais que tens e já te
ajudaram. Para ti é apenas recorrer a eles quando precisas, e por trás
criticares e magoares a sua essência com as tuas palavras e o teu preconceito.


Se eu poderia evitar isto?
Poderia… só tinha de sair da tua casa e ir viver a minha vida à minha maneira,
quer tu gostasses, quer não gostasses. Sabes… é claro que gostava que me
aceitasses como sou, mas na verdade, eu não quero saber, pois eu sigo com a
minha vida na mesma quer me aceitem ou não aceitem. Eu não tenho culpa de ter
nascido assim, na verdade se quisesses meter culpas em alguém, terias de meter
em ti e no pai que me transmitiram os genes, mas isto … nem é uma questão de genes.
Cada um tem a sua essência, e temos de aceitar o que somos. Não tens o direito
de me magoar assim, eu não abdiquei da liberdade que consegui na Universidade e
após esta, para vir para aqui e tu me magoares. Mas quando chegar a devida
altura, quando eu finalmente me puder defender, eu vou-me defender com todas as
palavras que eu retive aqui dentro para ti nos últimos anos todos, e nem
imaginas quantas são, e por fim quando eu me defender, não me irei só defender
a mim, irei defender todas as causas semelhantes às minhas. E se para isso
tiver de ir contra a minha própria família, eu vou!


A homossexualidade deixou de
ser um problema para mim há imenso tempo, eu estou bem comigo e com o mundo e
tu não tens o direito de me fazer sentir mal a este ponto. A minha vida não é
diferente das outras, eu não faço as coisas diferentes dos outros. Devias
sentir-te privilegiada por ter um filho que não é igual a todos os outros
filhos, devias ser uma mãe que me olhasse nos olhos e conseguisse ver quando eu
não estou bem, mas não vês. Os meus problemas são superficiais para ti. Nunca
me viste chorar, numa me ouviste desabafar sobre um desgosto de amor, nunca me
viste a delirar de amor, para ti sempre foi ter sucesso na escola, e nem era
pelo sucesso era para a escola acabar rápido para não teres mais despesas
comigo. E infelizmente não foste só tu a fazer-me sofrer por tudo isto, toda a
minha família à excepção da minha tia, tua irmã, e dos meus irmãos, todos sabem
que dedo apontar-me, onde criticar, onde na verdade nem uma única pessoa da
minha família à excepção dos que referi me conhece na realidade, e isso é
triste, isso faz-me não ter saudades dessas pessoas, faz-me não sentir a sua
falta, pois na verdade quando me vêm só perguntam as cenas superficiais da
vida, nunca se preocuparam como eu estava por dentro. Isso é duro.


Mas ainda assim eu gosto de
ti, ainda assim eu tenho sempre um sorriso, aí podes ver o quão forte eu sou
para a vida. Achas que já passas-te por muito? Achas que sofreste? Talvez, mas
aquilo que eu passei não tens o mínimo de noção da cicatriz que me deixou cá
dentro.



terça-feira, 12 de abril de 2011

Aguentar

Eu só tenho de me aguentar


Pode ser um trabalho um pouco cansativo, dias desmotivantes, mas já estive pior, e tenho de saber ser paciente se quero saber o francês, isto é apenas uma ponte para alcançar outra coisa.


Afinal de contas já estou cá, já consegui todos os documentos, já tenho um contrato de trabalho que me permite ter o último documento e o mais importante, que é o “Permi” para estar na Suiça. Possivelmente e como é apenas um part-time no mês que vem poderei finalmente começar as aulas do curso.


Ainda estou na formação até Sábado e estou morto por começar a fazer tudo sozinho, ao meu ritmo, sem pressões. Acho que grande parte da minha desmotivação se deve a andar sempre atrelado ao meu colega de trabalho (ainda que Português, não é nada simpático, nem giro).


Aqui há pessoas de todo o tipo, mas mais que em Portugal – aqui são extremamente reservadas e algumas não têm minimamente um espírito de ajuda para com os outros, refiro-me a este local de trabalho, pois quero acreditar que é apenas uma questão de má sorte que se tenha reunido aqui tanta gente “pouco acessível”. Mas pronto … ça va!


Tenho domado um pouco o meu espírito anti-social, ou digamos, a minha bipolaridade, parte dela deve-se, quero acreditar, a estar a viver com família, e a viver constantemente com esta máscara, acredito que dormiría muito mais tranquilo e em paz se não houvesse mentiras.


Anseio por deixar cair a máscara, pois cansa-me até de desabafar sobre isto, mas temo que os meus objectivos profissionais sempre vão contra estes objectivos pessoais, pois manter-me num curso com um trabalho a part-time pouco me sobra para tudo o resto que teria de pagar saíndo da casa da minha mãe.


Não bastasse isto tudo, tenho de referir que anseio por fazer conhecimentos, não falo só de amizades, de ter alguém com quem rir e falar, mas também de carinho, de amor, de um beijo… Oh God … meti isto pa fora… não que sinta particularmente de desabafar sobre essa carência…

sábado, 9 de abril de 2011

Para te ter

Onde eu cheguei

O que alcancei

Quem me dera fugir p'ra bem longe

Poder encontrar

Talvez n'outro lugar

Alguém que me prenda a mente

... e me sinta.

*

Tu podes saber o que tens de fazer

... mas

Por vezes é tudo em vão!

Seja como for é o desejo ou a dor

... e eu

Só quero sentir a paixão!

- O que é que eu posso fazer?

E como é que eu hei-de viver?

... Para te ter ...

... Para te ter ...

*

Os dias sem fim

Eu quero-te assim

Parte deste mundo onde eu vivo!

Sentado a ver

O que hei-de ser

Por vezes sonhando acordado

... que te tenho ...

*

Tu podes saber o que tens de fazer

... mas

Por vezes é tudo em vão?

Seja como for é o desejo ou a dor

... e eu

Só quero sentir a paixão!

- O que é que eu posso fazer?

E como é que eu hei-de viver?

... Para te ter ...

... Para te ter ...

*

E então eis que eu tento, lançar pragas ao vento

Na espera de um dia te encontrar

Poder dar-te um beijo é esse o meu desejo

Estar de frente ao teu respirar!

*

Tu podes saber o que tens de fazer

... mas

Por vezes é tudo em vão!

Seja como for é o desejo ou a dor

... e eu

Só quero sentir a paixão!

- O que é que eu posso fazer?

E como é que eu hei-de viver?

... Para te ter ...

... Para te ter ...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Algo que tinha de recordar



Hoje enquanto estava para aqui a formar uma espécie de pasta com os posts do meu blog. E faço-o porque se está a aproximar o momento de dar a conhecer as minhas histórias aos meus pais, aquilo de mim que eles nunca souberam, incluindo a minha sexualidade.


Dou comigo a reler momentos que passei, desabafos que tive, sofrimentos e alegrias, mas uma coisa eu gostei de recordar.


O tamanho da amizade que eu tenho com a Soraia, é incrível… desde aqueles momentos que eu era um simples “mancebo” na Universidade que começámos a falar mais, desabafos, jantares, saídas, dois simples conhecidos, já eras uma grande ajuda para mim, nessa altura numa fase em que eu estava a dar em maluco com a minha relação e isso me estava a tirar a concentração no estudo, tu conseguis-te chamar-me à terra e manter o meu pensamento ali no momento.


Ironia do destino, os nossos caminhos estavam destinados a muitas mais aventuras, e estes para mal dos nossos pecados juntaram-nos a morar juntos na “Mouzinho de Albuquerque”, sempre tivemos os nossos próprios mundos, vivendo nos nossos quartos, nessa altura mais tu que eu, pois pouco convivias na Sala, então eu mantinha-me por lá. Não foi preciso definir modos de convivência, ou qualquer regra em casa, as nossas acções falavam por sim e o outro respeitava isso. Por vezes bastava sabermos que o outro estava em casa para nos sentirmos bem. Houve grandes aventuras, houve mais confissões, a história se criava. Começámos com as nossas aventuras de emagrecer, aventuras essas onde sempre tives-te mais força e sucesso que eu, e melhorámos a nossa imagem. Altura em que comecei a dar a devida importância ao meu cabelo, tu aos teus vestidinhos com tamanhos não explorados. Estávamos felizes com estas pequenas vitórias de imagem, apenas nós dois e o nosso mundo que às vezes até tinha momentos de convivência com outros.


Nunca nos fartávamos um do outro, ou de estarmos em vários sítios juntos, jantares, Tuna, entre outros, talvez porque nunca exigimos a atenção ao outro, nunca pedimos respostas, apenas vivíamos um dia de cada vez, e isso muita gente não compreendia.


Começámos na onda de ter inquilinos em casa, não gostávamos muito de termos pessoas a mais na nossa vida, mas éramos ambos pessoas que até nos sabia bem pagar 90 e tal euros de renda e ter mais dinheiro para as nossas aventuras, então lá fomos tolerando, e eles até eram caloiros, mantinham-se no seu lugar e respeitavam o nosso modo de levar os dias, e eram até nossos seguidores nas aventuras, e diria até um pouco … escravos.


Acabando as várias aventuras na Mouzinho de Albuquerque, fase de muitas mudanças universitárias para ambos, os nossos caminhos andavam com alguns solavancos académicos, depois de algumas derrotas estava na altura de nos focarmos em acabar finalmente algumas coisas que já andavam pendentes há imenso tempo, cadeiras e outros assuntos. Até nisso estávamos em sintonia, e eis que tu saís-te da Tuna, confesso que me custou imenso na altura não te ter lá, falo de ti mas poderia falar de outra pessoa qualquer que tivesse saído. Para mim as vivências e o espírito académico tinham um significado tão gravado a sangue na minha pele que eu não entendia como é que os outros não sentiam o mesmo que eu. Ainda assim respeitei a tua decisão, pois ao contrário de muitos continuavas a respeitar a Tuna e tudo o resto que tinhas decidido manter-te distante.


E eis que começaram as nossas aventuras no “Gil Eanes”… Meu Deus… isto sim, era LUXO, que casão, que vida que tínhamos, foi talvez o verão que recordo com mais Saudade, aquela sala, aquela vida, mais noites, mais aventuras, e a história tendia em continuar sem parar, eu trabalhava, tu estagiavas, histórias partilhadas, e a Spears entrou para a nossa vida. Aquela pequena que hoje me dá igualmente saudade de ambas (não não vos comparo) mas sabes como é … Era como se ambas me conhecessem como mais ninguém. Uma tinha as palavras para me dizer, a outra bastava o olhar incompreendido mas de carinho.


As nossas rotinas a ir à farmácia nos pesar, mais aventuras na dieta, era óptimo. Mas nem tudo era um mar de rosas, eu cheguei àquela fase do abismo graças aquela ex relação, e estava prestes a desabar, e tu estavas lá, tinhas de lá estar, por mais que eu não quisesse chorar-te ao pé, pois nunca o fiz com ninguém. Mas tu apareces-te no momento em que me tinha quebrado, e eu … chorei, chorei como nunca tinha feito antes, era estranho, mas sabia tão bem, chorei pelo que sentia e chorei por tanta coisa ao mesmo tempo. Fez-me bem. E isso fez-te crescer imenso no meu coração, apenas pela presença.


Já não eras apenas amiga, companheira, a melhor amiga, já eras irmã de sangue, irmã de alma, irmã de espírito. Eras uma pessoa que eu queria proteger e não queria perder nunca.


Chegámos praticamente à fase final dos nossos cursos, mas o destino ainda nos tinha mais uma para reservar, não fomos embora de Portimão, ainda tínhamos mais uma casa por explorar e mais umas quantas aventuras, além disso, ainda não tínhamos morado na Praia da Rocha. Lá fomos nós, a nossa tralha e o novo membro do nosso Gang, a Spears.


Mas desta vez já não éramos aquelas duas pessoas académicas, apesar de tu teres regressado para a Tuna e tudo isso. Éramos mais “crescidos” mais “maduros”, as tradições e costumes académicos estava a desaparecer da nossa pele involuntariamente, e as coisas deixavam de fazer sentido, era como que se o destino nos obrigasse a passar por aventuras diferentes desta vez. E assim foi, se antes já éramos isolados, agora parecia que vivíamos num “forte” lol, continuámos com pequenas aventuras académicas, mas agora éramos mais “nós”… os jantares de frango só nossos, as saídas só nossos, já não era com muita gente, apenas mais um ou dois. Eu gostava disso. Éramos felizes, estávamos bem. Mesmo depois de acabarmos o curso, tu teres entrado na rotina de carta de condução, eu na de trabalho. Estávamos sempre lá os dois. A mesma cumplicidade, o mesmo pensamento de que não era preciso dizermos muito, pois como sempre tinha sido estávamos a uma parede de distância, e se não chegasse ainda tínhamos a respiração um do outro a dormir, que já bem conhecíamos.


Mas o destino não quis que houvesse boa vida para sempre, até porque a vida não é feita disto, ela quer que sigamos mais objectivos e não fiquemos por ali, e seguir muitos implica dar tempo ao tempo até em amizades. Tanto os teus como os meus tinham agora de seguir o seu rumo. Se temporariamente ou não? Quem sabe… Eu pessoalmente prefiro pensar que isto é temporário … sigo uma série de objectivos e alcanço-os… tu fazes o mesmo … e um dia decidimos que temos de voltar a morar juntos, gosto dessa ideia, quem sabe numa casa ainda mais luxuosa que a do Gil Eanes, e com um andar para cada um, pois nem que já tenhamos companheiros, acho que não impediria a minha vontade desse reencontro.


Mas quero pensar que esta história ainda tem muitas mais aventuras… Beijinhos Adoro-te Soraia.


domingo, 3 de abril de 2011

Weird Gay Night

Que noite estranha a de ontem. Em primeiro lugar forcei-me a sair, só para me forçar a conhecer pessoas, a língua, os lugares então esperei que esta rapariga me chamasse para eu ir ter com ela entretanto fui bebendo uma garrafa de vinho que tinha em casa, para não gastar muito dinheiro na noite.


Enquanto a bebia decidi mandar mensagem a este rapaz que conheci no facebook, ele é de Portugal mas está cá há algum tempo, na esperança de que ele saísse também e eu o pudesse conhecer ao vivo pessoalmente. Ele respondeu-me que iria sair para uma festa Gay que só acontece uma vez por ano na Suíça e todos os anos é numa cidade diferente, eu mais uma vez não pensei e forcei-me a ir. Se fosse o Ricardo de antes, não pensaria duas vezes de ir podre de bêbado para uma noite onde poderia ser eu mesmo, dançar até não poder mais e conhecer pessoas do meu mundo. E fui… para minha infelicidade e com a pressa com que ele estava para ir para a festa tive de apressar o meu passo que ainda são uns bons kms até ao destino e cheguei ao pé dele morto e suado… o cabelo esticado já se tinha ido à vida e comecei a sentir-me desconfortável comigo mesmo. Ainda fui na velha inocência homofóbica de chegar ao pé deles e esticar a mão, à qual eles ignoraram e me espetaram três beijos cada um sem qualquer preconceito e em frente a todos (na suíça há por costume dar três beijos quando se cumprimenta alguém). Tentei remediar a situação molhando o cabelo a ver se trazia os caracóis de volta à vida… mas nem isso me fazia sentir bem com a minha imagem.


Além de tudo, o rapaz não mostrou ser a pessoa que eu achava, apesar de simpático, era bastante abixanado, e preferi redireccionar as minhas atenções para o amigo dele que era muito mais “normal” e sociável, apesar de falar apenas francês. Mantive-me um pouco na festa e depois desapareci sem deixar rasto… estava a coincidir com a hora de saída da minha mãe no trabalho e fui ter com ela na esperança de haver um elástico ou algo que me salvasse o cabelo, ou então iria para casa.


Não encontrei solução possível, ainda assim… decidi mais uma vez contrarias as minhas vontades e desesperos e pedi ao táxi para me deixar à porta da disco onde a minha amiga estava a chegar, também com a esperança de haver um elástico no meio de tanta gaja, mas sem solução.


O alcoól já estava para lá do nível pretendido, e era a única solução que eu podia ter para me abstrair de tudo e todos. A minha noite gay estava arruinada, apesar de ter gostado de a ter conhecido, a minha imagem estava uma bagunça, não me sentia bem comigo próprio e fiquei a dançar e a beber com este grupo de pessoas… o calor era imenso… e cheguei ao ponto de pela primeira vez pensar… que este já não é mais o cabelo que quero … está na hora de mais uma mudança… e tratar de fazer um penteado novo… um nunca antes experimentado. E fiquei com este objectivo para mais tarde.


No meio da dança, alguém decidiu lançar gás pimenta na pista… nunca tinha experienciado tal cheiro, tal agonia… agora era agonia em todas as vertentes, é simplesmente “Horrível”, a garganta sufoca, arranha, não consegues inspirar fundo, os espirros descontrolados, a tosse ainda mais, não há forma de descrever, as pessoas a saírem para o andar de cima e para a rua todas ao mesmo tempo …foi horrível. Só passado um bom bocado é que se conseguiu voltar para dentro.


Mantive-me a dançar por um bom bocado até que decidi dar a desculpa de ir embora. Tentei chamar um táxi, mas estava demorado e decidi refazer os kms a pé de volta para casa, e estes eram muito mais difíceis, pois eram na maioria a subir, mas não quis saber. Se a bebedeira me faz fazer coisas que não me apetece fazer e me força a fazê-las, também me faz fazer as coisas sem pensar nelas ou nas consequências (isto q.b.).


Neste longo percurso tive bastante tempo para pensar… coisas positivas, negativas, déjà vu’s, saudades, recordações, esperanças, enfim, de tudo me passou pelo pensamento.


Em certa parte, e visto que foi uma noite de “andar a pé” para sítios nunca antes explorados, e fazê-lo sozinho, fez-me recordar os primeiros dias de Universidade em que também explorava novos caminhos também a pé. Desta vez o percurso era muito maior, e pensei “fogo tanto que queria ter aqui a Nádia ou a Xana para partilhar estas descobertas com elas, este cansaço, esta bebedeira”, pois eram elas que faziam essas aventuras a pé comigo.


Depois veio-me o pensamento de “não ter ‘amigos’ aqui”, apenas “conhecidos”, não posso apelidar estas pessoas de amigos, pois já aprendi e bem o que é um amigo, e estes estão muito longe de o serem. Pensei que estive tanto tempo em Portugal e muitas das vezes vivia no meu mundo sem dar a devida importância a algumas amizades que tinha, e era tão fácil de fazer amizades comparado com isto, e agora aqui é tão difícil de conseguir um simples “verdadeiro amigo”, enfim…


Pensei no quanto era mau não ter a minha Sósó em casa a partilhar as ressacas comigo, ou a Spears para se deitar ao pé de mim nas minhas bebedeiras. E no quanto frustrante era chegar a casa e não puder fazer barulho, não me poder deitar sem a preocupação de não fazer bagunça pois amanhã a minha mãe iria ver tudo. No quanto é frustrante me perguntarem em casa como tinha sido a noite e eu ter de inventar uma história onde metade seria mentira. Canso-me desta farsa.


Dou comigo a pensar, eu que era uma pessoa que dizia que nunca iria de Portugal, eu que era uma pessoa tão orgulhosa de mim mesmo por ter um Curso que consegui a muito custo, eu que sou uma pessoa que esforço-me para ser alguém e por ter mérito. Como é que eu consegui chegar a um ponto na minha vida e conseguir arranjar forças para colocar isso tudo de lado temporariamente para me adaptar a todo um novo país, língua, pessoas, e só depois de me adaptar eu posso usufruir de tudo o que alcancei antes desta adaptação. E o que deixa ainda mais raiva é não saber quanto tempo esta adaptação ira demorar, frustra saber que parte desta adaptação depende de eu me forçar a fazer coisas que normalmente nem me preocupo com elas, pois quero é tar descansado. Mas aqui estou eu. Meti uma barreira que não me permite olhar para trás nem desistir, uma barreira que por mais que me custe só me permite ir em frente, seja para que caminho for.


Enfim… mas tenho de dar a mão à palmatória, cada dia de trabalho é um leque de vocabulário que entra, e em cada saída a mesma coisa, por vezes são palavras que eu até já conhecia mas nunca tinham ficado retidas para saírem espontaneamente. Por isso é que tenho de continuar a forçar-me a fazer estas coisas. Quem diria … Eu …


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Medo

Afasto os maus espíritos de mim! Tento não pensar em nada! De relance olhei para a foto da minha gata “Spears” que sempre esteve comigo até nestes momentos do “Bom Dia de Trabalho” com o olhar vazio dela sentada na alcofa. Mas não quis olhar para a sua imagem, não quis pensar pois a sua ausência poderia fazer-me fraquejar, a falta que sinto dela..


*


Já no caminho, lembrei-me de outros “primeiros dias” de trabalho, inclusive, o último que tive tinha sido tão inútil que tinha chegado a casa em lágrimas e a querer desistir, mas as palavras da minha Sósó não o deixaram acontecer, deram-me força, e depois da adaptação até mostrou ser um trabalho razoável.


*


E assim foi, enchi-me de palavras de força que disse a mim mesmo e fui… à luta.