E eis que a
cidade
fica ao abandono
Partimos
tristes,
tão tristes
Como quando chegámos
Partem as ruas que subimos
Partem as esquinas, partem as luzes
Passos perdidos que demos
Partimos com os nossos olhos
Na procura de quem somos
E como nós partem aos molhos
Sonhos que já esquecemos
Partem as esperanças maduras
Que as verdes já perdemos.
Parte o rio para o mar
Cheio de lágrimas duras,
Pedras negras, que a chorar
Fazem faíscas nas ruas.
Lá, ficam os gritos calaos
Congelados pelo tempo
E como nós, homens pasmados
Forçados ao momento
Que também nos já passámos
Ficam das aves as asas
Marcadas no azul
As nossas vozes perdem-se
Pelas casas que marcámos no Sul
Ficam as mãos cansadas
Como as de quem perdeu
Como as horas dançadas
Que a brisa já esqueceu.
E estes dois corpos vencidos
Deixados ao desespero
De apenas terem nascido
Ser de facto verdadeiro
Que o tempo come tudo
Sem nada deixar para trás
Ficam os nossos restos, parte do nosso
mundo,
Agarra-se quem é capaz,
Até se irem os dedos
Para onde tudo jaz
Partem as esperanças ficam os medos
E a memória do que foi
Parece roer-nos os ossos
Em dor lenta que só dói.
Ficam os sonhos estragados
Como peso na mochila,
Sebentas que de tão gastas
São uma papa de argila…
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