quarta-feira, 20 de abril de 2011

Portimão


E eis que a
cidade

fica ao abandono


Partimos
tristes,

tão tristes


Como quando chegámos


Partem as ruas que subimos


Partem as esquinas, partem as luzes


Passos perdidos que demos


Partimos com os nossos olhos


Na procura de quem somos


E como nós partem aos molhos


Sonhos que já esquecemos


Partem as esperanças maduras


Que as verdes já perdemos.


Parte o rio para o mar


Cheio de lágrimas duras,


Pedras negras, que a chorar


Fazem faíscas nas ruas.


Lá, ficam os gritos calaos


Congelados pelo tempo


E como nós, homens pasmados


Forçados ao momento


Que também nos já passámos


Ficam das aves as asas


Marcadas no azul


As nossas vozes perdem-se


Pelas casas que marcámos no Sul


Ficam as mãos cansadas


Como as de quem perdeu


Como as horas dançadas


Que a brisa já esqueceu.


E estes dois corpos vencidos


Deixados ao desespero


De apenas terem nascido


Ser de facto verdadeiro


Que o tempo come tudo


Sem nada deixar para trás


Ficam os nossos restos, parte do nosso
mundo,


Agarra-se quem é capaz,


Até se irem os dedos


Para onde tudo jaz


Partem as esperanças ficam os medos


E a memória do que foi


Parece roer-nos os ossos


Em dor lenta que só dói.

Ficam os sonhos estragados

Como peso na mochila,

Sebentas que de tão gastas

São uma papa de argila…


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