Hoje magoas-te-me!
Hoje era suposto ser mais um
dia normal como tantos outros em que eu metia a minha máscara de filho que não
dá problemas e tu a da mãe que não quer ver que tem um filho homossexual.
Mas não foi, não dirigis-te
actos agressivos para mim, mas usas-te palavras duras, naquela conversa que era
suposto ser uma brincadeira, tu respondes-te-me de uma forma tão dura, tão
seca, as tuas palavras foram como lâminas no meu coração, eu nem te consegui
dirigir um falso sorriso, como normalmente faço, eu fiquei estagnado, abismado,
magoado, eu limitei-me a ficar apático perante a tua resposta e parado no mesmo
lugar.
E então quando caí na
realidade e reflecti sobre o que tinhas dito só me apeteceu chorar, chorar e
dizer-te tudo o que tinha para te dizer, quer te magoasse, quer não te
magoasse, eu queria dizer-te, pois queria ripostar com iguais palavras
cortantes e te magoar como me tinhas acabado de fazer. Não tens noção do que
dizes muitas vezes, não dás valor ao filho que tens, à irmã que tens e te
acolheu em sua casa, não dás valor aos amigos homossexuais que tens e já te
ajudaram. Para ti é apenas recorrer a eles quando precisas, e por trás
criticares e magoares a sua essência com as tuas palavras e o teu preconceito.
Se eu poderia evitar isto?
Poderia… só tinha de sair da tua casa e ir viver a minha vida à minha maneira,
quer tu gostasses, quer não gostasses. Sabes… é claro que gostava que me
aceitasses como sou, mas na verdade, eu não quero saber, pois eu sigo com a
minha vida na mesma quer me aceitem ou não aceitem. Eu não tenho culpa de ter
nascido assim, na verdade se quisesses meter culpas em alguém, terias de meter
em ti e no pai que me transmitiram os genes, mas isto … nem é uma questão de genes.
Cada um tem a sua essência, e temos de aceitar o que somos. Não tens o direito
de me magoar assim, eu não abdiquei da liberdade que consegui na Universidade e
após esta, para vir para aqui e tu me magoares. Mas quando chegar a devida
altura, quando eu finalmente me puder defender, eu vou-me defender com todas as
palavras que eu retive aqui dentro para ti nos últimos anos todos, e nem
imaginas quantas são, e por fim quando eu me defender, não me irei só defender
a mim, irei defender todas as causas semelhantes às minhas. E se para isso
tiver de ir contra a minha própria família, eu vou!
A homossexualidade deixou de
ser um problema para mim há imenso tempo, eu estou bem comigo e com o mundo e
tu não tens o direito de me fazer sentir mal a este ponto. A minha vida não é
diferente das outras, eu não faço as coisas diferentes dos outros. Devias
sentir-te privilegiada por ter um filho que não é igual a todos os outros
filhos, devias ser uma mãe que me olhasse nos olhos e conseguisse ver quando eu
não estou bem, mas não vês. Os meus problemas são superficiais para ti. Nunca
me viste chorar, numa me ouviste desabafar sobre um desgosto de amor, nunca me
viste a delirar de amor, para ti sempre foi ter sucesso na escola, e nem era
pelo sucesso era para a escola acabar rápido para não teres mais despesas
comigo. E infelizmente não foste só tu a fazer-me sofrer por tudo isto, toda a
minha família à excepção da minha tia, tua irmã, e dos meus irmãos, todos sabem
que dedo apontar-me, onde criticar, onde na verdade nem uma única pessoa da
minha família à excepção dos que referi me conhece na realidade, e isso é
triste, isso faz-me não ter saudades dessas pessoas, faz-me não sentir a sua
falta, pois na verdade quando me vêm só perguntam as cenas superficiais da
vida, nunca se preocuparam como eu estava por dentro. Isso é duro.
Mas ainda assim eu gosto de
ti, ainda assim eu tenho sempre um sorriso, aí podes ver o quão forte eu sou
para a vida. Achas que já passas-te por muito? Achas que sofreste? Talvez, mas
aquilo que eu passei não tens o mínimo de noção da cicatriz que me deixou cá
dentro.
…
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