domingo, 3 de abril de 2011

Weird Gay Night

Que noite estranha a de ontem. Em primeiro lugar forcei-me a sair, só para me forçar a conhecer pessoas, a língua, os lugares então esperei que esta rapariga me chamasse para eu ir ter com ela entretanto fui bebendo uma garrafa de vinho que tinha em casa, para não gastar muito dinheiro na noite.


Enquanto a bebia decidi mandar mensagem a este rapaz que conheci no facebook, ele é de Portugal mas está cá há algum tempo, na esperança de que ele saísse também e eu o pudesse conhecer ao vivo pessoalmente. Ele respondeu-me que iria sair para uma festa Gay que só acontece uma vez por ano na Suíça e todos os anos é numa cidade diferente, eu mais uma vez não pensei e forcei-me a ir. Se fosse o Ricardo de antes, não pensaria duas vezes de ir podre de bêbado para uma noite onde poderia ser eu mesmo, dançar até não poder mais e conhecer pessoas do meu mundo. E fui… para minha infelicidade e com a pressa com que ele estava para ir para a festa tive de apressar o meu passo que ainda são uns bons kms até ao destino e cheguei ao pé dele morto e suado… o cabelo esticado já se tinha ido à vida e comecei a sentir-me desconfortável comigo mesmo. Ainda fui na velha inocência homofóbica de chegar ao pé deles e esticar a mão, à qual eles ignoraram e me espetaram três beijos cada um sem qualquer preconceito e em frente a todos (na suíça há por costume dar três beijos quando se cumprimenta alguém). Tentei remediar a situação molhando o cabelo a ver se trazia os caracóis de volta à vida… mas nem isso me fazia sentir bem com a minha imagem.


Além de tudo, o rapaz não mostrou ser a pessoa que eu achava, apesar de simpático, era bastante abixanado, e preferi redireccionar as minhas atenções para o amigo dele que era muito mais “normal” e sociável, apesar de falar apenas francês. Mantive-me um pouco na festa e depois desapareci sem deixar rasto… estava a coincidir com a hora de saída da minha mãe no trabalho e fui ter com ela na esperança de haver um elástico ou algo que me salvasse o cabelo, ou então iria para casa.


Não encontrei solução possível, ainda assim… decidi mais uma vez contrarias as minhas vontades e desesperos e pedi ao táxi para me deixar à porta da disco onde a minha amiga estava a chegar, também com a esperança de haver um elástico no meio de tanta gaja, mas sem solução.


O alcoól já estava para lá do nível pretendido, e era a única solução que eu podia ter para me abstrair de tudo e todos. A minha noite gay estava arruinada, apesar de ter gostado de a ter conhecido, a minha imagem estava uma bagunça, não me sentia bem comigo próprio e fiquei a dançar e a beber com este grupo de pessoas… o calor era imenso… e cheguei ao ponto de pela primeira vez pensar… que este já não é mais o cabelo que quero … está na hora de mais uma mudança… e tratar de fazer um penteado novo… um nunca antes experimentado. E fiquei com este objectivo para mais tarde.


No meio da dança, alguém decidiu lançar gás pimenta na pista… nunca tinha experienciado tal cheiro, tal agonia… agora era agonia em todas as vertentes, é simplesmente “Horrível”, a garganta sufoca, arranha, não consegues inspirar fundo, os espirros descontrolados, a tosse ainda mais, não há forma de descrever, as pessoas a saírem para o andar de cima e para a rua todas ao mesmo tempo …foi horrível. Só passado um bom bocado é que se conseguiu voltar para dentro.


Mantive-me a dançar por um bom bocado até que decidi dar a desculpa de ir embora. Tentei chamar um táxi, mas estava demorado e decidi refazer os kms a pé de volta para casa, e estes eram muito mais difíceis, pois eram na maioria a subir, mas não quis saber. Se a bebedeira me faz fazer coisas que não me apetece fazer e me força a fazê-las, também me faz fazer as coisas sem pensar nelas ou nas consequências (isto q.b.).


Neste longo percurso tive bastante tempo para pensar… coisas positivas, negativas, déjà vu’s, saudades, recordações, esperanças, enfim, de tudo me passou pelo pensamento.


Em certa parte, e visto que foi uma noite de “andar a pé” para sítios nunca antes explorados, e fazê-lo sozinho, fez-me recordar os primeiros dias de Universidade em que também explorava novos caminhos também a pé. Desta vez o percurso era muito maior, e pensei “fogo tanto que queria ter aqui a Nádia ou a Xana para partilhar estas descobertas com elas, este cansaço, esta bebedeira”, pois eram elas que faziam essas aventuras a pé comigo.


Depois veio-me o pensamento de “não ter ‘amigos’ aqui”, apenas “conhecidos”, não posso apelidar estas pessoas de amigos, pois já aprendi e bem o que é um amigo, e estes estão muito longe de o serem. Pensei que estive tanto tempo em Portugal e muitas das vezes vivia no meu mundo sem dar a devida importância a algumas amizades que tinha, e era tão fácil de fazer amizades comparado com isto, e agora aqui é tão difícil de conseguir um simples “verdadeiro amigo”, enfim…


Pensei no quanto era mau não ter a minha Sósó em casa a partilhar as ressacas comigo, ou a Spears para se deitar ao pé de mim nas minhas bebedeiras. E no quanto frustrante era chegar a casa e não puder fazer barulho, não me poder deitar sem a preocupação de não fazer bagunça pois amanhã a minha mãe iria ver tudo. No quanto é frustrante me perguntarem em casa como tinha sido a noite e eu ter de inventar uma história onde metade seria mentira. Canso-me desta farsa.


Dou comigo a pensar, eu que era uma pessoa que dizia que nunca iria de Portugal, eu que era uma pessoa tão orgulhosa de mim mesmo por ter um Curso que consegui a muito custo, eu que sou uma pessoa que esforço-me para ser alguém e por ter mérito. Como é que eu consegui chegar a um ponto na minha vida e conseguir arranjar forças para colocar isso tudo de lado temporariamente para me adaptar a todo um novo país, língua, pessoas, e só depois de me adaptar eu posso usufruir de tudo o que alcancei antes desta adaptação. E o que deixa ainda mais raiva é não saber quanto tempo esta adaptação ira demorar, frustra saber que parte desta adaptação depende de eu me forçar a fazer coisas que normalmente nem me preocupo com elas, pois quero é tar descansado. Mas aqui estou eu. Meti uma barreira que não me permite olhar para trás nem desistir, uma barreira que por mais que me custe só me permite ir em frente, seja para que caminho for.


Enfim… mas tenho de dar a mão à palmatória, cada dia de trabalho é um leque de vocabulário que entra, e em cada saída a mesma coisa, por vezes são palavras que eu até já conhecia mas nunca tinham ficado retidas para saírem espontaneamente. Por isso é que tenho de continuar a forçar-me a fazer estas coisas. Quem diria … Eu …


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