A solidão ecoa nas curvas desta caligrafia
E condesa-se no toque desta caneta
Aumentando sempre
Sempre que há vozes,
Sempre que há contacto ou proximidade,
Porque estar próximo significa apenas
Não se ter chegado ainda…
E as memórias são veneno,
As memórias que guardo de tantas noites vãs
Onde no largo passar do tempo
Não fiz mais do que somar horas
Coleccionando postais de ruas desertas
Onde a brisa do verão ou o frio de janeiro
Passam por mim sem me verem.
Memórias das noites em que bebi a vida
Como se de um chá frio se tratasse
Deixando-me apenas o travo ácido da solidão,
Dos sonhos partidos que não soube colar
E dos desejos tórridos
Que me queimaram outrora a alma
Hoje não sou nada,
Não pertenço a nada,
Não há irmandade a que pertença,
Não há mestre ou doutrina a que me curve,
Não há amor a que me agite,
Nem fogo, nem vida, nem ser.
Só este enorme mar parado em mim,
Este embaraço na alma que perdi,
Este peso de tudo nos ombros
Por estar tudo tão longe,
Por tudo parecer puro sonho
E por saber que ao acordar
Esta angústia estará ainda aqui
Consumindo-me, por dentro,
Mordendo-me as artérias
E queimando num lume brando
Todas as esperanças
Que deixei de saber ter…