segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A solidão ecoa

A solidão ecoa nas curvas desta caligrafia

E condesa-se no toque desta caneta

Aumentando sempre

Sempre que há vozes,

Sempre que há contacto ou proximidade,

Porque estar próximo significa apenas

Não se ter chegado ainda…

E as memórias são veneno,

As memórias que guardo de tantas noites vãs

Onde no largo passar do tempo

Não fiz mais do que somar horas

Coleccionando postais de ruas desertas

Onde a brisa do verão ou o frio de janeiro

Passam por mim sem me verem.

Memórias das noites em que bebi a vida

Como se de um chá frio se tratasse

Deixando-me apenas o travo ácido da solidão,

Dos sonhos partidos que não soube colar

E dos desejos tórridos

Que me queimaram outrora a alma

Hoje não sou nada,

Não pertenço a nada,

Não há irmandade a que pertença,

Não há mestre ou doutrina a que me curve,

Não há amor a que me agite,

Nem fogo, nem vida, nem ser.

Só este enorme mar parado em mim,

Este embaraço na alma que perdi,

Este peso de tudo nos ombros

Por estar tudo tão longe,

Por tudo parecer puro sonho

E por saber que ao acordar

Esta angústia estará ainda aqui

Consumindo-me, por dentro,

Mordendo-me as artérias

E queimando num lume brando

Todas as esperanças

Que deixei de saber ter…

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