Ainda dizem que as nossas decisões não se reprecutem um dia mais tarde na nossa vida… e a cada dia que passa eu vejo que essa teoria está errada.
Devemos sempre pensar nas nossas acções e que rumo ou repercussões elas podem ter um dia mais tarde na nossa vida, eu só tenho exemplos desses na minha família que me levam a que calcule cada passo que dou para não dar passos em falso, levam-me a sofrer por cada erro que cometo pois não quero ter o mesmo futuro que eles.
O meu pai é o melhor exemplo a “não” se seguir que eu tenho.
Toda a vida teve a sua personalidade vincada, temperamento difícil … errou mas não aprendeu, ou se aprendeu, pensou que continuando a fazer da sua forma, que as coisas iriam ficar melhores, mas nunca entendeu que era a sua forma que o induzia em erro.
Mas vou deixar o meu pensamento retroceder no tempo, para que se compreenda o porquê de eu gostar do meu pai, mas ainda assim não haver esse afecto familiar que é um “ mar de rosas” entre pai e filho.
Eu de facto era o filho ideal para o meu pai … alinhava nas actividades que ele fazia comigo, noites de cinema junto à lareira, passeios nas terras do alentejo, caça, ver e tratar dos animais, ir para o trabalho dele com ele, isto em criança, e era chato mas bom, porque eu não tinha opinião e limitava-me a obedecer. E eis que as coisas pioram.
O meu pai era exageradamente tudo à maneira dele, tudo em casa sob ordens dele, queria a comida na mesa a tempo e horas e ninguém podia refilar com nada que ele impusesse, e a minha mãe era do género liberal, o oposto – e não, neste caso os opostos não se atrairam durante muito tempo. As coisas lá em casa chocavam e o meu pai começava por tudo e por nada a berrar com a minha mãe e batia-lhe constantemente, partia coisas em casa, era pavoroso, eu tinha medo, eu petrificava onde quer que estivesse apesar de eles me mandarem para outras divisões da casa. Eu começei a ter problemas que nem vou referir aqui que se repercutiram na minha personalidade, nas minhas acções naquela altura, isso afectou-me na escola inclusivé.
Aquela fase foi um verdadeiro inferno, até hoje eu nunca questionei o meu pai sobre os motivos que o levaram a fazer aquilo, nem sei se algum dia conseguirei fazê-lo, talvez se um dia tivermos uma conversa onde a honestidade esteja a 100% presente da parte dos dois. Acho que nem os meus pais sabem que eu tenho bem vivas as memórias daqueles momentos infernais. Que tenho bem viva a imagem do meu pai a bater na minha mãe e eu a correr para a defender e sendo arremessado de seguida contra a parede… Enfim…
Os anos passaram, eu cresci, eles separaram-se … ambos conheceram outras pessoas, quanto a essas acções eu acho que lá no fundo o meu pai se arrependeu bastante, pois nunca as repetiu com a esposa que teve em seguida. Mas a personalidade nunca mudou, o ambiente na minha familia paterna sempre foi “eu comprei isto” “eu tenho aquilo” e há a necessidade de mostrarem que têm as coisas, de se vangloriarem pelo que antingiram aos olhos dos outros, odeio isso, e o meu pai também é assim como o resto dos outros, e aos poucos foi-se enterrando cada vez mais em dívidas, em promessas, em papeis, de tal forma que já nunca mais vai ter o seu nome limpo e dormir em paz.
Mas esta sombra que ele carrega, e este passado de arrependimento fizeram-no mudar para melhor, ou querer ser uma melhor pessoa? Não. Continua a mesma personalidade dura, que se importa mais com o que o seu pai pensa, com o que as pessoas da aldeia pensam, recusando evoluir a sua mentalidade, recusando a opinião dos outros, dos próprios filhos que já conhecem outra realidade da vida.
Acho que a minha mentalidade evoluiu em várias coisas e com essa evolução veio o facto de meter para trás aquelas imagens infernais que ele gravou na minha memória, eu nunca me esqueci delas, mas nunca deixei que isso influenciasse a minha relação com ele.
Não sei descrever bem ..acho que havia dois de mim a relacionar-me com dois dele. Por um lado havia o Ricardo amargurado pelo que ele lhe fez passar, aquele pai que sabia lá no fundo o mal que tinha feito, mas mantinha-se escondido por detrás daquela aparente evolução. Este Ricardo amargurado que queria vingar-se daquilo tudo, que vivia com a mãe mas jurou a si mesmo que ele haveria de pagar de uma forma ou de outra por tudo o que tinha feito a minha mãe passar, mas não eram pensamentos maus, eram atitudes que me faziam querer que ele me pagasse as minhas despesas escolares e tudo o que lhe pudesse tirar por ele ter deixado a minha mãe a sustentar dois filhos, sozinha a muito custo. E eu mantive esse pensamento sempre presente até ao fim do meu curso anos mais tarde. Durante este percurso o Ricardo que tinha uma relação filho-pai, que usava a máscara, ainda mal sabia as várias camadas que essa máscara iria possuir uns tempos mais tarde. Pois por aqui já podem ver, que não sei em que rumo está a minha relação com o meu pai… máscara atrás de máscara, pois o feitio dele assim me fez enterrar, e mesmo que quisesse começar a tirar as máscaras, eu sozinho não o podería fazer.
Só para concluir, a segunda esposa dele acabou agora por deixá-lo também, a sua situação financeira continua mais perdida que ele, e isto está a deitá-lo abaixo, mas mesmo assim não lhe vejo melhoras, ele não amolece, e eu vejo isso… inda hoje dei com ele a chorar, fiquei estranho, havia algo perdido dentro de mim que queria avançar… mas algo dentro de mim petrificou … como antes petrificava com o medo… e fico com os olhos vazios olhando para ele com palavras sábias, mas que não chegam ao coração. Agora fala-me em ir para fora, fazer outra vida, recomeçar, e eu apoio-o nisso, sei que lá fora, longe desta mentalidade retrógrada ele vai evoluir em mil sentidos como eu há muito espero, mas com ele eu já não vou deitar os “foguetes antes da festa”, vou deixá-lo ir, apoiar como é minha obrigação, e esperar… esperar que ele recupere de todas as feridas que a sua própria personalidade lhe causou, e se prepare, pois a língua que ele teve para falar de tudo e de todos durante anos, vai ainda doer-lhe muito. Pois espero que ele ganhe forças suficientes para aguentar quando eu lhe colocar todas as minhas máscaras em cima da mesa.
Eu posso não saber como as tirar pois já se emaranharam todas ao longo dos anos… o único método será descarregar-lhe tudo em cima, e acho que será o último acto daquele Ricardo amargurado que está cá dentro, antes de eles se tornarem numa só personalidade.
(Este texto pode soar vingativo ou que não gosto dele, mas em 24 anos, foi a primeira vez que escrevi sobre o meu pai, e meti cá para fora um ordem de raciocínio sobre ele, e sobre os meus vários estados de espírito que ele me provocou e ainda provoca. Do meu geito eu gosto dele, mas vou fazer com que ele corrija os erros que cometeu, e esse percurso vai ser doloroso).
Sem comentários:
Enviar um comentário